SÃO PAULO — A Transwolff voltou a ser alvo de uma operação do Ministério Público de São Paulo nesta quinta-feira (17), em uma investigação sobre a infiltração do Primeiro Comando da Capital (PCC) no transporte público da capital. A empresa está entre as 12 viações investigadas na Operação Vectura Corrupta, que também alcançou a Alfa RodoBus.
A decisão do desembargador Sérgio Antônio Ribas, que autorizou as medidas, cita o ex-presidente da Câmara Municipal de São Paulo Milton Leite (União Brasil) como “dono oculto e de fato” da Transwolff. O magistrado determinou a prisão temporária de Leite por 30 dias.
Policiais fizeram buscas em endereços ligados ao político e recolheram malotes com documentos. Ele não foi localizado no imóvel. Leite afirmou que estava viajando e que se apresentaria às autoridades em até 24 horas. Também negou as acusações e disse que provaria sua inocência.
A defesa de Leite declarou que sua atuação no setor de transportes ocorreu a pedido do então prefeito Bruno Covas, em 2019, quando ele presidia a Câmara e ocupava a posição de vice-prefeito na linha sucessória. Leite também afirmou ter participado de negociações relacionadas a greves no setor.
Intervenção e contratos
A Prefeitura de São Paulo determinou a intervenção na Transwolff por meio do Decreto Municipal nº 63.328, de 9 de abril de 2024. A medida também atingiu a UPBus. Posteriormente, a prefeitura rescindiu os contratos e assumiu o controle das duas empresas em dezembro de 2024.
As linhas da Zona Sul que eram operadas pela Transwolff foram transferidas para a Sancetur e a Alfa RodoBus. Esta última também é investigada na operação e assumiu operações da UPBus na Zona Leste, passando a operar 13 novas linhas.
A Alfa RodoBus já atuava no sistema municipal antes da crise. A empresa é concessionária do lote D13, no subsistema local de distribuição, e operava com 148 ônibus, atendendo cerca de 90,3 mil passageiros por dia na região Oeste. Documentos do Tribunal de Contas do Município apontam que o contrato assinado com a SPTrans em 2019 tinha valor aproximado de R$ 1,62 bilhão.
O prefeito Ricardo Nunes (MDB) afirmou que a investigação não ameaça a continuidade do serviço. Segundo ele, a Transwolff está sob administração municipal após a intervenção e a caducidade do contrato.
A Transwolff negou que Milton Leite tenha participação societária ou administrativa na empresa. Também afirmou que o empresário Luiz Carlos Efigenio Pacheco não havia sido denunciado anteriormente e que contesta na Justiça as acusações da Operação Fim de Linha.
Empresas e prisões
Segundo o Ministério Público de São Paulo, 12 das 22 empresas de ônibus que operam na cidade são suspeitas de ligação com o PCC. Elas atuam principalmente no subsistema local, que atende bairros mais afastados e reúne 6.029 ônibus de uma frota total de 13.690 veículos.
Além de Transwolff e Alfa RodoBus, a lista inclui Viação Transcap Transportes, A2 Transportes, Imperial Transportes, Move Buss Transportes, Pêssego Transportes, Allianz Transportes, Transunião Transportes, Qualibus Transportes, Norte Bus Transportes e Spencer Transportes.
A operação busca cumprir 16 ordens de prisão e 18 mandados de busca e apreensão em São Paulo, Santana de Parnaíba, São Bernardo do Campo, Diadema, Santos, Praia Grande e Cubatão.
Também foram presos Levi dos Santos Oliveira, ex-presidente da SPTrans, e Danilo Marco Morgado Silva, que disputou a Prefeitura de Praia Grande em 2024 e era candidato a deputado estadual. A defesa de Oliveira afirmou que ele não tem antecedentes e construiu uma trajetória de serviços públicos na cidade de São Paulo.
A investigação apura ainda a chamada “Sintonia dos Gravatas”, formada por advogados que, segundo a polícia, atuariam em benefício do PCC além dos limites da advocacia. Entre os investigados estão Cícero José dos Santos Filho, Eduardo Medeiros e Milton Mello Milreu. José Daniel Satilite, conhecido como Alemão, é apontado como intermediário entre empresários, advogados, políticos e integrantes da facção.
Operações anteriores
A Transwolff e a UPBus já haviam sido alvo da Operação Fim de Linha, deflagrada em abril de 2024 por suspeitas de lavagem de dinheiro e favorecimento ao PCC. A investigação apontou que recursos usados para aumentar o capital da Transwolff poderiam ter origem ilícita e mencionou o uso de “laranjas” e “CNPJs fantasmas”.
A apuração atual também é relacionada à Operação Contaminatio, realizada em abril de 2026, que investigou uma fintech administrada pela facção e a rede de operadores financeiros usada para lavagem de dinheiro. O caso começou em agosto de 2024, após a apreensão de 30 quilos de drogas em Itaquaquecetuba. Dados extraídos de um celular levaram os investigadores a chefes da chamada “Sintonia Final” e à fintech, que teria movimentado cerca de R$ 8 bilhões.



