BRASÍLIA — A Bravo Grafeno, empresa de capacetes cujo dono é o senador Flávio Bolsonaro (PL), está registrada no mesmo endereço em Brasília que pelo menos 16 empresas ligadas a Antonio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS. A companhia também utiliza serviços da Voga Serviços Contábeis, empresa pertencente a Alexandre Caetano dos Reis, sócio de Antunes e contador do escritório de advocacia do senador.
O endereço é a sala 2601, bloco D, do Edifício Connect Towers, em Águas Claras, região administrativa do Distrito Federal. A Voga ocupa quatro salas no 26º andar. Na recepção da empresa, instalada na sala 2603, o advogado Thalles Setúbal confirmou que a contabilidade presta serviços à Bravo Grafeno, mas negou que a sala 2601 pertença à Voga. Funcionários abordados no corredor, porém, indicaram a recepção da empresa quando a sala 2601 estava fechada.
Questionado sobre a relação da Voga com Flávio Bolsonaro e com as investigações da Polícia Federal, Setúbal afirmou: “A gente se posiciona nos autos, não com imprensa”. Flávio negou anteriormente envolvimento no escândalo do INSS, mas não havia se manifestado até o fechamento das informações. A defesa de Antunes também não respondeu.
Empresa de capacetes
A Bravo Grafeno foi aberta pela família Bolsonaro em junho de 2024, com capital social de R$ 100 mil. A loja virtual vende dois modelos de capacete por R$ 598,90 e viseiras branca e preta por R$ 54. O domínio do site foi registrado em julho de 2024 em nome de Flávio Bolsonaro.
O ex-presidente Jair Bolsonaro, que já participou da sociedade, divulga a marca. Em vídeo publicado no site da empresa, ele diz: “Com capacete Bravo de grafeno, você garante sua liberdade e segurança. Assim como eu, esse é 100% brasileiro”. Bolsonaro lançou o produto em 11 de março de 2025, no Salão das Motopeças, em São Paulo. Nelson Piquet também divulgou a marca durante uma live em 2025.
Carlos Bolsonaro, ex-vereador e filho de Jair Bolsonaro, também aparece entre os sócios. A empresa tem ainda Pedro Luiz Dias Leite, Paulo Giordano Bernardi e Fernando Nascimento Pessoa no quadro societário. Pessoa foi investigado no caso da rachadinha no gabinete de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Os três, assim como Carlos Bolsonaro, não responderam às tentativas de contato.
Empresas ligadas ao investigado
Antunes está preso preventivamente desde setembro de 2025, no Presídio da Papuda, em Brasília. As investigações da Polícia Federal apontam que ele operava empresas de fachada para desviar mensalidades recebidas irregularmente por associações de aposentados. As fraudes teriam lesado mais de 4,3 milhões de aposentados e pensionistas entre 2019 e 2024, com prejuízo de R$ 2 bilhões aos cofres públicos.
A sala 2601 aparece no cadastro de empresas de consultoria, construção, incorporação, comércio, locação de veículos e call center ligadas a Antunes. Entre elas está a Prospect Consultoria Empresarial. De acordo com o relatório final da CPMI, a empresa recebeu R$ 204,2 milhões de nove entidades investigadas: R$ 115,9 milhões da Unaspub, R$ 27,1 milhões da Ambec e R$ 19,8 milhões da CBPA.
Oito empresas ligadas a Antunes foram fundadas no mesmo dia, 5 de outubro de 2023. A RPLD Construtora e Incorporadora foi registrada um mês depois da Bravo Grafeno. Algumas empresas foram baixadas após o início das investigações.
Alexandre Caetano dos Reis, sócio de Antunes, também foi sócio dele em uma empresa offshore nas Ilhas Virgens Britânicas. Segundo a investigação da Polícia Federal, o contador tinha acesso a planilhas internas, documentos estratégicos e operações financeiras consideradas sensíveis. Ele está preso desde dezembro de 2025.
Outra ligação citada é Letícia Caetano dos Reis, irmã de Alexandre e administradora do escritório de advocacia de Flávio Bolsonaro. Ela afirmou, em entrevista em 30 junho de 2022, que chegou ao escritório por indicação de Willer Tomaz, amigo do senador e advogado que foi alvo da Operação Sem Desconto. Tomaz tem procuração para defender Alexandre nos autos da investigação sobre os desvios no INSS.




