SÃO PAULO — A privatização da Sabesp foi usada nas negociações que aproximaram o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), o prefeito Ricardo Nunes (MDB) e o então presidente da Câmara Municipal de São Paulo, Milton Leite. O acordo também envolveu a eleição municipal de 2024 e ampliou a influência política de Leite junto ao governo paulista.
A articulação resultou na aceleração da tramitação do projeto na Câmara. A cláusula do contrato da companhia de saneamento com o município que impedia a venda da estatal à iniciativa privada acabou derrubada.
Negociações pela privatização
A aprovação municipal era necessária porque o contrato da Sabesp com a cidade de São Paulo continha uma restrição à privatização. Leite mantinha o projeto parado desde setembro de 2023, enquanto Tarcísio tratava a venda da empresa como uma de suas principais bandeiras desde a campanha de 2022.
Em outubro de 2023, Leite havia criticado a negociação envolvendo a Sabesp e a Emae, afirmando que não abriria mão dos direitos da cidade de São Paulo. Ao mesmo tempo, usava a pré-candidatura do deputado federal Kim Kataguiri à Prefeitura para pressionar Nunes. O União Brasil, partido liderado por Leite em São Paulo, tinha sete vereadores e era importante para a formação da maioria na Câmara.
Como parte dos entendimentos, Nunes apoiou a escolha do vereador Ricardo Teixeira (União) para a presidência da Câmara Municipal. Com isso, o comando da Casa permaneceu sob um partido ligado a Leite. Tarcísio, por sua vez, assegurou o retorno da influência do ex-vereador no Palácio dos Bandeirantes. A saída de Gilberto Kassab (PSD) da Casa Civil e a indicação de Arthur Lima, do União Brasil, aliado de Leite, confirmaram esse movimento.
Operação contra infiltração do PCC
A aliança foi exposta em um evento realizado na Vila Emir, na zona sul de São Paulo, em 17 de janeiro de 2024. Na ocasião, Tarcísio elogiou Leite diante de apoiadores do então vereador.
Nesta quinta-feira (17), Leite foi alvo da Operação Vectura Corrupta, que investiga a infiltração do Primeiro Comando da Capital (PCC) no poder público e no sistema de transporte coletivo. A polícia decretou a prisão do ex-presidente da Câmara, que é considerado foragido. Danilo Morgado (PL), candidato a deputado estadual pelo partido de Flávio Bolsonaro, foi preso.
A ação pretende executar 16 mandados de prisão e 18 de busca e apreensão. As diligências ocorrem em São Paulo, Santana de Parnaíba, São Bernardo do Campo, Diadema, Santos, Praia Grande e Cubatão, sob coordenação da Delegacia de Investigações Sobre Entorpecentes de Mogi das Cruzes, com apoio do Gaeco e do Ministério Público de São Paulo.
A Polícia Civil identificou 12 empresas de transporte coletivo que seriam controladas, direta ou indiretamente, pelo PCC. Os investigadores apontam possível atuação de integrantes e intermediários da organização em empresas e processos de licitação do transporte público da capital.
A proximidade entre Tarcísio e Leite também apareceu há 18 dias, no lançamento das candidaturas de Alexandre Leite a deputado estadual e Milton Leite Filho a deputado federal. Na ocasião, o governador afirmou: “uma parceria enorme”.



