SÃO PAULO — A Polícia Federal afirma que Flávio Bolsonaro acompanhou diretamente as negociações de recursos para a produção de “Dark Horse”, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro. O relatório reúne mensagens, ligações e encontros com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master, além de dados extraídos do celular de Vorcaro e de relatórios de inteligência financeira do Coaf.
A apuração aponta que o senador não teria sido apenas mencionado por terceiros nas tratativas. Segundo os investigadores, ele atuou como interlocutor de Vorcaro para tentar viabilizar aportes destinados ao filme, cobrando pagamentos, marcando reuniões e acompanhando o cronograma das gravações.
Em manifestação sobre o caso, Flávio confirmou que pediu recursos a Vorcaro, depois de ter negado essa solicitação. O senador afirmou que os contatos integravam uma relação privada de captação de patrocínio. Também negou ter recebido valores diretamente ou cometido irregularidades. A defesa pede a retirada integral do sigilo dos autos.
Registros financeiros e contatos
Um dos registros destacados pela PF ocorreu em 16 de setembro de 2025, data de uma ligação entre Vorcaro e Flávio. No mesmo dia, a Entre Investimentos realizou a última remessa de US$ 1,66 milhão para a Havengate Development Fund, nos Estados Unidos, conforme relatórios do Coaf.
A primeira troca direta de mensagens identificada ocorreu em 20 de agosto de 2025. Em 8 de setembro, Flávio cobrou repasses atrasados e mencionou o risco de um “calote” para pessoas envolvidas na produção, entre elas o ator Jim Caviezel e o diretor Cyrus Nowrasteh. Vorcaro pediu desculpas e disse que resolveria a situação no dia seguinte.
Em 15 de setembro, o empresário Thiago Miranda informou a Vorcaro que Flávio queria apresentar o material gravado. A reunião seria na residência do banqueiro, em Brasília. No dia seguinte, houve o registro da ligação entre os dois. Novas tentativas de encontro aparecem em mensagens de 17, 23 e 24 de setembro.
Em 22 de outubro, com as filmagens no terceiro dia, Flávio avisou que a produção estava “no limite” do orçamento. Pediu uma resposta rápida caso o aporte não fosse liberado para buscar outra alternativa. Vorcaro afirmou que verificaria o assunto e que havia liberado mais uma parcela. Depois, o senador o convidou para um jantar em São Paulo com Caviezel e Nowrasteh.
Mensagens antes da prisão
No fim de outubro e no começo de novembro, Thiago Miranda voltou a questionar Vorcaro sobre pagamentos que, segundo ele, ainda não haviam chegado aos destinatários no exterior.
Em 7 de novembro de 2025, Flávio enviou a Vorcaro um vídeo da produção e agradeceu pelo apoio: “Tá perdendo, irmão! Tudo isso só está sendo possível por causa de vc!”. Em 16 de novembro, tentou falar com o banqueiro e mandou novas mensagens, incluindo: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz!”.
Em 17 de novembro de 2025, por volta das 22h, Vorcaro foi preso pela PF ao tentar embarcar em um jato particular para o exterior. Na manhã seguinte, a corporação iniciou a primeira fase da Operação Compliance Zero.
Pontos que serão investigados
O relatório indica cinco frentes para aprofundamento: a origem dos recursos usados no filme; a razão da participação da Entre Investimentos e Participações, ligada a Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como “Mineiro”; a função da Havengate Development Fund LP, registrada no Texas; a identificação dos beneficiários finais dos valores enviados ao exterior; e a divisão de responsabilidades entre os envolvidos.
Entre os nomes citados nessa última frente estão Flávio Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro, Mario Frias, Thiago Miranda, Fabiano Zettel, Antônio Freixo, Altieres Santana e Paulo Calixto. A PF busca esclarecer o papel de cada um na captação, na administração e no destino das quantias.



