ITAPECERICA — A Corporação Musical Nossa Senhora das Dores mantém em Itapecerica uma tradição musical associada a celebrações religiosas, procissões e encontros da comunidade há mais de dois séculos. O grupo reúne atualmente cerca de 50 músicos de diferentes gerações e se apresenta em igrejas, ruas e eventos do município.
Trompetes, trombones, saxofones, clarinetes, tubas, bombardinos, caixas e pratos integram a formação. O repertório inclui música sacra, dobrados, marchas e outras peças ligadas à tradição das corporações musicais mineiras. A maestrina Cássia Theresa Rodrigues Medeiros conduz os músicos nas apresentações.
Um marco histórico em 1808
A tradição histórica da corporação considera 1808 o início simbólico de sua trajetória. Naquele ano, um registro menciona um solene Te Deum na Igreja de São Francisco, com “boa música”, em celebração à chegada da Família Real Portuguesa ao Brasil.
A documentação não confirma que os músicos daquele episódio fossem os mesmos integrantes da atual corporação. Por isso, o ano é tratado como referência histórica, e não como prova de uma continuidade formal entre os grupos.
De acordo com a Diocese de Divinópolis, por volta de 1830 a prática musical já existente na comunidade passou por uma organização e começou a ser identificada como Nossa Senhora das Dores. O processo contou com a participação do cônego Domiciano Francisco de Oliveira e do mestre Lourenço.
A ligação entre música e religião se fortaleceu ao longo das gerações. Entre os nomes associados a essa trajetória estão o cônego Domiciano, o cônego Cesário, o monsenhor Cerqueira e o padre Herculano da Silva Paz. O monsenhor era violinista, tinha formação musical e esteve ligado à construção da atual Matriz de São Bento.
O padre Herculano, que morreu em 1949, tocava instrumento de sopro e influenciou músicos da cidade. “A relação da banda e da cidade se entrelaçam”, afirmou Dom Gil Antônio Moreira, bispo emérito de Juiz de Fora e estudioso da história religiosa de Itapecerica.
Partituras que atravessaram gerações
Carmelo Mesquita foi músico, professor, compositor e regente. Ele ensinava instrumentos de cordas e deixou centenas de obras, entre peças sacras e marchas executadas durante celebrações da Semana Santa. Também regeu a Corporação Musical Nossa Senhora das Dores por muitos anos.
Seu filho, Dom Antônio Carlos Mesquita, nasceu em Itapecerica em 1923 e se tornou bispo de São João del-Rei. Outro nome ligado ao repertório da corporação é Cesário Mendes de Cerqueira. Uma pesquisa da Universidade Federal de São João del-Rei catalogou cerca de 400 composições atribuídas a ele e preservadas no arquivo do grupo.
A música também se espalhou pelas ruas por meio dos dobrados, presentes em procissões, festas, solenidades e cortejos. Dom Gil resumiu essa tradição com a frase: “Tradição mineira é tocar dobrado”.
Itapecerica também possui a Corporação Musical Santa Cecília, formada após uma divisão entre músicos da Nossa Senhora das Dores no fim do século XIX. Em 1908, músicos ligados a um dos grupos resultantes se uniram para criar a Lyra Santa Cecília, depois denominada Corporação Musical Santa Cecília.
Continuidade da tradição
O Setenário das Dores, realizado nos dias que antecedem a Semana Santa, é uma das manifestações em que a música sacra ocupa papel central. A celebração reúne cânticos em latim e obras de compositores mineiros e foi registrada em 2018 como patrimônio cultural imaterial de Itapecerica.
Reconhecida pela Fundação Nacional de Artes entre as corporações musicais de Minas Gerais, a Nossa Senhora das Dores mantém sua sede no Centro de Itapecerica. Dom Gil afirma que são 216 anos de atuação ininterrupta.
A continuidade depende da entrada de novos músicos e da transmissão de conhecimentos entre gerações. Assim, partituras antigas permanecem presentes nas apresentações, enquanto a corporação segue acompanhando momentos de fé, celebração e encontro na cidade.



