BELO HORIZONTE — A estudante Mariana Soares, 23, perdeu o ovário e a trompa esquerdos após uma torção ovariana não identificada por três dias. O problema foi causado por um cisto de 8 centímetros, e a cirurgia ocorreu em abril de 2021, quando ela tinha 17 anos.
Mariana conta que sentia fortes cólicas desde os 8 anos, antes mesmo da primeira menstruação. Aos 11, começou a ter sangramentos intensos e ciclos que duravam semanas. Médicos da rede pública atribuíram os sintomas à idade e prescreveram anticoncepcionais sem solicitar exames.
Aos 13 anos, ela passou 50 dias seguidos sangrando e desenvolveu anemia. Em uma maternidade de referência em Belo Horizonte, recebeu apenas um teste de gravidez, que deu negativo, e teve o anticoncepcional trocado. O primeiro ultrassom foi feito aos 14 anos, em uma consulta particular, quando recebeu o diagnóstico de síndrome dos ovários policísticos, hoje chamada de Somp (Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina).
Dor aguda e diagnóstico
Aos 17 anos, Mariana acordou com uma dor intensa e procurou atendimento. Recebeu medicamentos, incluindo morfina e tramadol, mas os exames realizados em uma UPA apontaram apenas uma leve infecção urinária. Foi solicitado um ultrassom dos rins e das vias urinárias, e não da região ginecológica.
Como o exame pelo SUS demoraria dias, a mãe conseguiu uma consulta particular para dois dias depois. A médica não conseguiu visualizar o ovário esquerdo e suspeitou de torção ovariana. No hospital, porém, a hipótese foi inicialmente descartada. A tomografia feita na manhã seguinte confirmou o problema.
O cisto havia torcido o ovário. Já tinham se passado três dias, enquanto o prazo para tentar reverter esse tipo de torção é de até 24 horas. Mariana foi operada no mesmo dia e perdeu o ovário e a trompa esquerdos.
Depois da cirurgia, um pedido de ultrassom anual ficou parado no sistema por cinco anos. Ela só conseguiu fazer o exame neste ano. Atualmente, relata dor de cabeça, enjoo, intestino preso, fadiga e dores nas pernas, nos braços e nas costas. Nos períodos mais intensos, procura hospitais para receber medicação na veia. Só neste ano, diz ter sido atendida nessas condições três ou quatro vezes.
A mãe de Mariana também teve sintomas desde a adolescência e só recebeu diagnósticos de endometriose e adenomiose perto dos 40 anos. Após ter dois filhos, precisou fazer uma histerectomia quase completa.
Mariana faz curso pré-vestibular e sonha em cursar medicina. Ela afirma que pretende contribuir para mudanças no sistema de saúde e diz que a dor de pacientes é frequentemente desconsiderada.



