SÃO PAULO — Munições compradas pela Polícia Militar de São Paulo na década de 2000 foram identificadas em cenas de crimes ao longo dos últimos 14 anos. O caso mais recente é a morte do advogado Carlos Alves Vieira, conhecido como Ferrugem, baleado por policiais da Rota em novembro de 2025, em Itaquaquecetuba, na Grande São Paulo.
Um levantamento do Instituto Sou da Paz encontrou cápsulas dos mesmos lotes em chacinas na região metropolitana de São Paulo, em um ataque que deixou 11 mortos em Londrina (PR) e em um duplo homicídio em São Gonçalo (RJ).
Lotes comprados pela PM
Os códigos AAE67 e BAY18 foram associados a lotes adquiridos pela PM paulista em 2005 e 2007, respectivamente. O primeiro reunia 438 mil munições de calibre 9mm. O segundo tinha 320 mil munições desse calibre e mais 1,4 milhão do tipo .40.
Os dois lotes desrespeitam uma portaria do Exército editada em 2004, que estabeleceu o limite de 10 mil munições para cada código. A regra foi criada para facilitar o rastreamento de desvios.
As primeiras ocorrências relacionadas aos lotes identificadas no levantamento datam de 2012. Entre 25 e 27 de outubro daquele ano, mais de 30 assassinatos foram registrados em cerca de 48 horas durante uma onda de chacinas em Osasco e Carapicuíba. O estudo também apontou uma chacina em Osasco em 8 de setembro, na qual foram usadas munições 9mm dos lotes AAE67 e BAY18.
Cartuchos dos mesmos lotes apareceram ainda na chacina de Osasco e Barueri, em agosto de 2015, que deixou 17 mortos. Dois policiais militares foram condenados pelo caso. Um guarda municipal condenado em primeira instância foi absolvido posteriormente.
Em janeiro de 2016, munições dos lotes foram encontradas em uma chacina em Londrina que deixou 11 mortos. Dez pessoas foram assassinadas durante a noite e a madrugada de 29 e 30 de janeiro, após a morte de um policial militar. Seis PMs foram presos temporariamente, e dois foram levados a júri popular pela resposta à morte do policial, mas foram absolvidos.
Também em 2015, os códigos AAE67 e BAY18 foram identificados em um ataque em São Gonçalo que matou duas pessoas. A investigação apontou uma disputa entre facções como motivação. Dois homens foram denunciados e absolvidos pelo Tribunal do Júri.
Morte em Itaquaquecetuba
No caso de Carlos Alves Vieira, munições com os códigos AAE67 e BAY18 foram encontradas no carregador de uma pistola Glock 9mm atribuída ao advogado. A arma foi apresentada por policiais militares na delegacia. Os códigos constam do laudo do Instituto de Criminalística, e a origem dos lotes foi confirmada pelo Sou da Paz com base em dados de um inquérito do Ministério Público Federal.
A Secretaria da Segurança Pública informou que a Polícia Civil "segue apurando a ocorrência de novembro de 2025 em Itaquaquecetuba, incluindo as munições utilizadas". O setor de homicídios em Mogi das Cruzes conduz a investigação em sigilo. O inquérito da Corregedoria da PM foi concluído e enviado à Justiça Militar, que o remeteu à Justiça comum.
Parte da ocorrência foi registrada pelas câmeras corporais dos policiais, mas a Glock não aparece nas imagens. A gravação começou mais de seis minutos após os tiros. Uma câmera de segurança mostrou um policial mexendo no banco traseiro de uma viatura da Rota e, depois, no porta-malas do carro em que Vieira foi baleado. Mais tarde, uma mochila com 12 tijolos de maconha foi encontrada no compartimento.
Os policiais disseram ter apreendido duas armas no veículo. Nas imagens, aparece apenas uma pistola Taurus calibre 380. A perícia apontou que a numeração original da Glock havia sido raspada e substituída por um código falso. O número da Taurus foi completamente apagado, o que impediu o rastreamento das duas armas.
Além da Glock, foram localizados uma cápsula de calibre 9mm no assoalho do carro e outros seis cartuchos no asfalto. Todos eram de munições da PM.
Vieira foi apontado pelo governo paulista como integrante do PCC, mas a Ouvidoria das Polícias contesta essa afirmação. Recém-aprovado na OAB, ele era sócio de lojas de peças de motocicleta e de uma empresa de logística. Havia sido investigado por tráfico de drogas a partir de 2015, sem ser indiciado, e foi denunciado e processado por furto em 2009, mas não condenado.
Falta de base pública
Na mesma perícia, apareceram cápsulas com os códigos ABC81, AAF67 e BNT84. O lote BTN84 foi comprado pela Polícia Federal e também é irregular: mais de 6 milhões de munições tinham o mesmo código. Os outros dois lotes não têm origem conhecida publicamente.
Por lei, fabricantes devem marcar com códigos alfanuméricos as cápsulas vendidas às polícias e às Forças Armadas. Munições adquiridas no mercado civil não precisam ter esse código de rastreabilidade.
O Sou da Paz reúne informações por meio da Lei de Acesso à Informação e de outras fontes públicas, mas não existe uma base unificada das munições compradas pelas forças de segurança. O instituto pediu, via LAI, os códigos de todas as munições vendidas a esses órgãos. O pedido está há cerca de dois anos em análise pela Casa Civil da gestão Lula, última instância para avaliar solicitações de informação.
Para Bruno Langeani, consultor sênior do Sou da Paz, "A falta de uma lista pública com os lotes impede que possamos cobrar órgãos com mais desvios".




