SÃO PAULO — Augusto Cury, candidato do Avante à Presidência, passou a aparecer em terceiro lugar nas pesquisas, à frente dos ex-governadores Romeu Zema e Ronaldo Caiado. O escritor é citado atrás de Lula e Flávio Bolsonaro nos levantamentos mais recentes.
A Quaest registrou 10% das intenções de voto para Cury. A BTG/Nexus apontou 11%, nove pontos a mais em uma semana. O Datafolha também identificou crescimento, mas em ritmo menor.
A exposição do candidato aumentou depois de sua participação no debate da TV Bandeirantes, no último dia 23, e da sabatina no Jornal Nacional, no dia 29. A principal aposta, porém, está nas redes sociais. Cury tem 10,7 milhões de seguidores no Instagram, próximo dos 11,4 milhões de Flávio Bolsonaro.
Dados da plataforma Palver indicam que as citações ao escritor subiram de 2.309 em julho para 27.678 em agosto. Entre os dias 23 e 31, foram 24.046 menções, equivalentes a 87% do total registrado no mês.
A campanha afirma que o crescimento é orgânico. Um estrategista eleitoral ouvido sob anonimato avaliou que o avanço é desproporcional diante da audiência do debate, estimada em cerca de dois pontos. Também houve especulações sobre o uso de robôs e o financiamento proibido de influenciadores.
Estratégia e imagem pública
Cury tenta se apresentar como uma alternativa às disputas tradicionais entre direita e esquerda. O marqueteiro Leandro Grôppo, que participou das duas campanhas de Romeu Zema ao governo de Minas Gerais, definiu o cenário como “a eleição do cansaço”. O mote adotado pelo candidato é a pacificação política.
A campanha explora a imagem de alguém que não dependeria da política para viver. Cury é escritor, psiquiatra e empresário, declarou patrimônio de R$ 242 milhões e tem mais de 70 obras publicadas. Sua mulher, Suleima Cury, participa da rotina eleitoral, assim como as filhas Camila, Carol e Claudia.
O candidato já esteve em escolas, igrejas e podcasts, gravou vídeos comendo pastel e visitou a favela da Rocinha, no Rio. Em São Paulo, reuniu-se a portas fechadas com José Wellington Costa Junior, vice-presidente da Assembleia de Deus.
Antes de ingressar no Avante, Cury conversou com Aécio Neves, presidente do PSDB, e Gilberto Kassab, do PSD. O partido tem cinco deputados e um senador, Marcos do Val, que afirma apoiar Flávio Bolsonaro.
Propostas e críticas
No programa entregue à Justiça Eleitoral, Cury defende déficit fiscal próximo de zero, controle de gastos, redução gradual da dívida pública e a criação de 10 milhões de novos empreendedores. Também propõe ampliar a telemedicina, criar o Programa Nacional de Saúde Mental, recriar o Ministério da Segurança Pública e usar inteligência artificial em áreas como segurança e combate à corrupção.
Para o Supremo Tribunal Federal, propõe mandato de oito anos, idade mínima de 50 anos e a redução das atuais 11 cadeiras para 9, com ao menos 3 mulheres. Na segurança, também defende drones para proteger mulheres e um aplicativo para acionar a polícia.
A teoria da Gestão da Emoção, base dos livros e palestras de Cury, aparece mais de 30 vezes no plano de governo. O conceito é associado à “síndrome do pensamento acelerado”, criticada pela psiquiatra Elisa Brietzke, professora da Queen's University, no Canadá.
Brietzke afirma que a síndrome não aparece na classificação de doenças da OMS nem no manual da Associação Americana de Psiquiatria. Para ela, sintomas atribuídos ao conceito podem estar ligados a condições como apneia do sono, depressão, hipotireoidismo, TDAH, ansiedade e transtorno bipolar.
Patrimônio e negócios
Cury declarou à Justiça Eleitoral 17 fazendas, dois apartamentos, três prédios, investimentos e participações em empresas. Ele detém 99,97% da Filadélfia Nature, holding ligada a plantações e outras atividades do agronegócio.
Em uma propriedade vinculada à empresa, a Fazenda Serra Branca, em Prata (MG), morreu em fevereiro de 2024 um homem que fazia extração de produto. A companheira dele moveu ação trabalhista, alegando vínculo rural sem registro. Cury negou contratação ou benefício direto do trabalho. A Filadélfia afirmou que havia cedido parte da fazenda à Hevea-Minas.
O processo terminou em acordo de R$ 100 mil, sem decisão sobre o vínculo. Cury e a Filadélfia foram excluídos da ação e não participaram do pagamento.
Em 2013, o escritor fundou com Maria Isabel Garcia Castro a Faculdades Brasil Inteligente, em Belém, hoje Faculdade Cosmopolita. A sociedade durou menos de dois meses. Cury vendeu 1,5 milhão de quotas por R$ 1,5 milhão, mas recorreu à Justiça em 2018 após não receber no prazo. A cobrança alcançava R$ 3,41 milhões em maio de 2021, e o débito não foi integralmente quitado.



