SÃO PAULO — Foragida da Justiça brasileira e aguardando o desfecho de um pedido de extradição na Itália, Carla Zambelli participa da campanha da mãe, Rita Zambelli, à Câmara dos Deputados por São Paulo. A candidata, 76, afirma que a filha ajuda a definir as pautas, produzir conteúdo para as redes sociais e gravar vídeos de pedido de voto.
O irmão de Carla, Bruno Zambelli (PL-SP), também disputa uma eleição, desta vez para continuar na Assembleia Legislativa de São Paulo. Rita diz compartilhar os princípios e valores da filha, condenada pelo Supremo Tribunal Federal em dois processos.
Condenações e extradição
No caso envolvendo o Conselho Nacional de Justiça, Carla foi condenada a dez anos de prisão por invadir o sistema do órgão e emitir um mandado de prisão falso contra o ministro Alexandre de Moraes. A perda do mandato seria consequência automática da condenação. A Câmara rejeitou a cassação em plenário, mas a então deputada renunciou ao cargo dias depois.
Em outro processo, relacionado ao episódio em que apontou uma arma para um homem em São Paulo, recebeu pena de cinco anos e três meses, em regime semiaberto.
Carla deixou o Brasil em junho de 2025, um mês depois da condenação pela invasão do CNJ, e foi presa na Itália em julho daquele ano. Ela foi solta em maio de 2026. O primeiro pedido brasileiro de extradição foi negado pela Justiça italiana. Depois, o governo apresentou uma nova solicitação, relacionada ao caso da arma. Esse processo continua em aberto e deve voltar à Corte de Apelação italiana a partir de outubro.
Durante a prisão em Roma, mãe e filha se comunicavam por cartas. As mensagens levavam de dois a três dias e passavam por controle antes de chegar à destinatária. “Não falávamos de política”, disse Rita, que afirmou ter priorizado o apoio à filha. Desde a libertação, segundo ela, as duas conversam por vídeo “todo dia, toda hora, todo momento”.
Campanha da família
Rita afirma que foi Carla quem sugeriu sua candidatura. Com o slogan “Jornada pela Justiça”, ela pretende defender no Congresso pautas associadas à filha, como combate à corrupção, tolerância zero contra o crime, oposição ao aborto, atenção a doenças raras e liberdade de expressão. Também apoia o que chama de presos políticos.
A candidata diz que não tem discordâncias políticas com Carla. “A voz dela não pode ser calada no Brasil”, afirmou ao explicar a decisão de disputar o cargo.
Rita também relata ter participado da administração da campanha da filha e acompanhado sua vida pessoal e política. As duas afirmam ter fundado o movimento Nas Ruas em 2011. Carla foi eleita deputada federal em 2018.
Há registro no Tribunal Superior Eleitoral de que Rita concorreu à Câmara Municipal de Mairiporã pelo PTB em 2004, usando o nome Rita Salgado. João Zambelli, filho de Carla, tem 18 e deve disputar uma vaga de vereador por São Paulo em 2028.
Questionada se sua candidatura poderia contornar a inelegibilidade da filha, Rita respondeu que “pode até ser”. Ela afirmou, porém, que a família continuará trabalhando “com ela ou sem ela”.
Recursos e planos
O PL responde por 99,9% das doações recebidas pela campanha de Rita, no total de R$ 500 mil. O filho Bruno Zambelli doou R$ 50 mil. A família também arrecada recursos para pagar a defesa de Carla na Itália, mas Rita afirma que o valor obtido ainda não cobre integralmente os honorários do advogado italiano.
Rita acredita que a filha pretende voltar ao Brasil e, eventualmente, ocupar outro cargo público. Segundo ela, Carla seria presa no aeroporto caso retornasse agora. Mesmo assim, a candidata diz esperar que a situação mude e que a “injustiça vai acabar”.



