SÃO PAULO — Mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, e documentos analisados pela corporação apontam relações pessoais e profissionais do ex-banqueiro com cinco ministros do Supremo Tribunal Federal (STF): Dias Toffoli, Alexandre de Moraes, André Mendonça, Kassio Nunes Marques e Luiz Fux.
Toffoli foi o primeiro relator do caso, mas deixou a função em março, depois que a Polícia Federal encaminhou ao presidente do STF, Edson Fachin, um relatório sobre transferências financeiras entre uma empresa da família do ministro e fundos ligados ao Master. A decisão foi tomada em reunião secreta entre os ministros.
A atuação de Toffoli havia sido questionada por decisões como o reconhecimento da competência do Supremo para julgar o caso, a convocação de uma acareação com um diretor do Banco Central, a adoção de alto nível de sigilo e a nomeação de peritos pelo gabinete. Documentos também indicam que ele voou, em julho de 2025, em avião de uma empresa que tinha Vorcaro como sócio. Toffoli afirmou que “vários magistrados são donos de empresas”.
Moraes e Mendonça
Mensagens analisadas pela Polícia Federal indicam que Vorcaro consultou Alexandre de Moraes sobre a possibilidade de deixar o país dois dias antes de ser preso. Em 15 de novembro de 2025, o banqueiro teria perguntado: “Acha que segunda já tenho que estar fora?”. Na segunda-feira (17), foi detido enquanto se preparava para embarcar em um jato particular com destino a Malta.
A corporação também apontou que Moraes fez alterações em um contrato de R$ 131 milhões entre o escritório de sua esposa, Viviane Barci de Moraes, e o Banco Master. O ministro nega ter trocado mensagens com Vorcaro e classificou a acusação como “ilação mentirosa no sentido, novamente, de atacar o Supremo Tribunal Federal”. Documentos indicam ainda viagens de Moraes e Viviane Barci em jatos de empresas de Vorcaro ou ligadas a ele entre maio e outubro de 2025.
Mensagens apontam um encontro de cerca de duas horas entre Vorcaro e André Mendonça em 14 de março de 2025, articulado por um advogado e pelo deputado federal Cezinha de Madureira (PL-SP). O encontro ocorreu em São Paulo. Mendonça confirmou publicamente a reunião em 2 de setembro de 2026 e disse que a conversa durou de 20 a 30 minutos, com foco em precatórios do Master.
Vorcaro foi convidado pelo menos duas vezes para eventos do Instituto Iter, fundado por Mendonça. Um deles foi um debate restrito no Hotel Fasano, em Belo Horizonte, mas não há confirmação de que o ex-banqueiro tenha participado. Em 3 de setembro deste ano, Mendonça anunciou que deixaria a sociedade do instituto e cederia suas cotas sem contrapartida. Depois, Flávio Dino pediu a Fachin uma investigação formal sobre os vínculos entre o Master e o Iter.
Kassio e Fux
Mensagens trocadas entre Vorcaro e Luiz Rennó, então diretor jurídico do Master, tratam de pagamentos ao advogado Kevin Marques, filho de Kassio Nunes Marques. Rennó mencionava repasses mensais de R$ 500 mil por meio da Consult Inteligência Tributária.
Em 1º de outubro de 2024, Rennó informou que o STF havia decidido a favor de uma destilaria que receberia indenização bilionária da União. O Master mantinha em seu balanço uma carteira de precatórios sucroalcooleiros estimada em R$ 10 bilhões. Kassio, que inicialmente havia se declarado impedido, reviu a posição e desempatou o julgamento a favor da destilaria.
Na sessão de 15 de setembro, o ministro negou relação com Vorcaro e afirmou que o filho nunca prestou serviços nem recebeu pagamentos do Master. Kassio também deixou de participar da votação sobre o caso. A assessoria de Kevin disse que ele recebeu R$ 281,6 mil da Consult por serviços jurídicos tributários, sem relação com o STF.
Mensagens também mostram a proximidade entre Vorcaro e Rodrigo Fux, filho de Luiz Fux e advogado. Rodrigo chamava o ex-banqueiro de “irmão” e pediu que informações sobre um compromisso em Londres fossem enviadas à secretária do ministro no Supremo. Na sessão de 15 de setembro, Fux afirmou que nunca teve relação com Vorcaro. O escritório de Rodrigo declarou que não advogou, prestou serviços ou recebeu valores do banqueiro, do Master ou de empresas e fundos ligados ao grupo.


