BELO HORIZONTE — A cineasta paraguaia Paz Encina recebe homenagem nesta terça (22) durante a 20ª Mostra Internacional de Cinema de Belo Horizonte, a CineBH. Além do troféu pela trajetória, ela ministra uma masterclass e participa de sessões comentadas de três filmes: “Hamaca Paraguaya”, “Exercícios de Memória” e “Carta a um Velho Mestre”.
A diretora começou a estudar violão clássico aos quatro anos e afirma que sua primeira alfabetização ocorreu por meio da música. “As primeiras coisas que li e escrevi foram notas musicais”, diz. A formação influenciou o ritmo e a construção sonora de seus filmes, nos quais perda, ausência, espera e memória aparecem em narrativas minimalistas.
Cinema, memória e ditadura
A estreia de Encina em longas-metragens ocorreu com “Hamaca Paraguaya”, de 2006, premiado na mostra Um Certo Olhar, do Festival de Cannes. O filme também interrompeu um hiato de quase 30 anos na produção de longas do Paraguai.
A história acompanha um casal de fazendeiros que espera o retorno do filho, enviado à Guerra do Chaco contra a Bolívia, em 1935. A obra utiliza longos planos fixos e mantém os personagens quase sempre observados à distância, enquanto os diálogos transitam entre o tempo vivido e o tempo sonhado.
Encina nasceu em 1971, durante as mais de três décadas da ditadura de Alfredo Stroessner no Paraguai. Ela afirma que o campo das imagens e dos sons se tornou um refúgio diante da repressão e das violações dos direitos humanos. Para a cineasta, a liberdade está na possibilidade de criar uma forma própria de ver e ouvir.
Seu segundo longa, “Exercícios de Memória”, de 2016, aborda a história paraguaia a partir das lembranças dos filhos de Augustín Goiburú, opositor político do regime de Stroessner que desapareceu em 1976. A diretora relaciona a memória à esperança e à possibilidade de construir uma lembrança coletiva sobre o passado e as mudanças futuras.
Formada em comunicação no Paraguai e em direção cinematográfica pela Universidad del Cine, em Buenos Aires, Encina cita o cineasta japonês Yasujiro Ozu como uma referência para a criação de sua própria gramática cinematográfica. Ela destaca a duração das cenas e os enquadramentos do diretor, conhecido como o “poeta da rotina”.
Programação da CineBH
Para Cleber Eduardo, coordenador curatorial da CineBH, a homenagem acompanha o espaço dado pela mostra ao cinema latino-americano. Ele também destaca a coincidência entre os 20 anos do primeiro longa de Encina e a 20ª edição do evento.
A 20ª CineBH ocorre desta terça (22) até 27 de setembro, na capital mineira, com 102 filmes em sessões competitivas, temáticas e históricas. A programação é gratuita e acontece paralelamente ao 17º Brasil CineMundi — Encontro Internacional de Coprodução, voltado ao mercado audiovisual.
A mostra também homenageia a escritora Conceição Evaristo, que estreia como atriz em “Se Eu Fosse Vivo... Vivia”, filme de abertura dirigido por André Novais Oliveira. A obra venceu, neste sábado (19), o Candango de melhor longa-metragem do Festival de Brasília.



