BOSTON — Academias, cafés e outros espaços gratuitos estão sendo usados nos Estados Unidos como pontos de apoio para pessoas em recuperação do uso de drogas e álcool. A proposta é oferecer atividades, amizades e rotinas fora de clínicas, consultórios e reuniões tradicionais, mas sem substituir o tratamento médico ou os programas de 12 passos.
Kylie Corbitt, 37, conheceu a Phoenix depois de sair de uma clínica de tratamento de dependência de 30 dias. Moradora de Milton, em Massachusetts, ela relatou que sua rede de contatos era formada por pessoas que usavam drogas e que teve dificuldade para encontrar acolhimento nas reuniões dos Alcoólicos Anônimos.
O uso de metanfetamina havia se intensificado durante a pandemia da Covid-19, após a perda de um emprego mantido por uma década e a morte da avó que a criou. A depressão e a falta de uma rotina também fizeram com que os dias parecessem repetitivos. Na Phoenix, em Boston, Corbitt começou com escalada e depois passou a praticar CrossFit. Em 6 de julho, completou dois anos sem usar drogas.
“Não ficamos sentados falando sobre dependência o dia inteiro”, disse Corbitt. “Falamos sobre ficar saudáveis e melhorar.”
Atividades no lugar dos antigos rituais
A Phoenix funciona em um espaço com paredes de escalada e equipamentos de treino, como pesos livres, máquinas de remo e cordas navais. Também há tatames de jiu-jítsu e argolas de ginástica. Para frequentar o local, os membros precisam estar sóbrios há 48 horas antes de cada visita.
Outro modelo é o Recovery Café, criado em Seattle. O espaço oferece refeições quentes e café sem cobrança, além de convivência em um ambiente semelhante a um refeitório e a uma cafeteria de bairro. A rede passou de 21 cafés em 2020 para 92 em 2025. No mesmo período, as novas inscrições de membros da Phoenix subiram de cerca de 20 mil para mais de 433 mil.
Esses locais costumam exigir algum tempo de sobriedade, mas funcionam com base na confiança, sem teste de drogas. Também são mais flexíveis que outros programas. Ruby Takushi, uma das fundadoras da Recovery Café Network, disse que a exigência é que os membros estejam sóbrios no dia da visita, e não necessariamente que sigam abstinência permanente.
A lógica é criar distância de ambientes e relações associados ao uso de substâncias. Ryan Forrester parou de usar drogas em 2018, mas voltou a beber enquanto cumpria prisão domiciliar e vivia com um parente que fumava maconha. Ele deixou a prisão domiciliar em abril de 2019 e só interrompeu novamente o consumo de álcool em novembro de 2024, quando passou a frequentar a Phoenix.
Evidências ainda são limitadas
Pesquisadores afirmam que conexão social e pertencimento podem ajudar a sustentar a recuperação, enquanto solidão e gatilhos ambientais podem elevar o risco de recaída. John Kelly, diretor do Recovery Research Institute no Mass General Brigham, descreveu o crescimento desses espaços como uma renovação do movimento de recuperação.
A Phoenix informa que 83% de seus novos membros permanecem sóbrios após três meses. Kelly também acompanhou frequentadores por seis meses e os comparou com pessoas em recuperação que não participavam da academia. Não houve diferença nos dias de consumo de álcool ou de consumo pesado, mas os membros da Phoenix relataram menos danos relacionados ao uso de álcool ou drogas, como problemas financeiros, prejuízos a amizades e conflitos familiares.
Os resultados são preliminares, e as evidências sobre espaços sociais sóbrios específicos ainda são limitadas. Esses locais não estão preparados para desintoxicação, abstinência grave ou crises agudas. Além disso, como a participação não é obrigatória nem determinada pela Justiça, a continuidade depende da motivação da própria pessoa.
Por isso, Keith Humphreys, psicólogo e codiretor da Stanford Network on Addiction Policy, afirmou que essas comunidades tendem a ser procuradas por pessoas que já não estão em uma situação em que cada dia é uma luta contra as substâncias. A função principal é complementar o cuidado médico e os programas de 12 passos, oferecendo novas rotinas e vínculos para enfrentar solidão, tédio e desconexão durante a recuperação.



