TATUÍ — O artista Diego Rodrigues, de 30 anos, criou uma mostra de arte drag em Tatuí depois de sobreviver a um Acidente Vascular Cerebral (AVC). Conhecido nos palcos como Diddy, ele pretende ampliar o acesso à cultura drag no interior de São Paulo e ocupar o Teatro Procópio Ferreira com apresentações, atividades técnicas e outras linguagens artísticas.
Rodrigues mora em Tatuí e atua como drag queen há dez anos. Durante a internação provocada pelo AVC, ele decidiu que, caso se recuperasse, ajudaria a criar um evento voltado à cena drag. “Em 9 de setembro de 2025, eu tive um AVC e fiquei no hospital por 28 dias”, afirmou.
A proposta também marca a trajetória de Diddy e de Lady Meteora, sua mãe drag. Nascido e criado em Tatuí, Rodrigues diz que teve pouco contato com outras drags na cidade ao longo de sua carreira. Lady Meteora é apontada por ele como pioneira no município e celebra 30 anos de atuação, enquanto Diddy completa dez anos de carreira.
Evento reúne apresentações e funções técnicas
A iniciativa surgiu depois que o coletivo se inscreveu em um edital de ocupação do Conservatório de Tatuí. A participação é voluntária e não prevê remuneração. Além das performances, as artistas participarão da discotecagem, da parte técnica e de outras funções ligadas à realização do evento.
Para Diddy, o edital abriu espaço em uma área que nem sempre acolhe artistas drag. A mostra também pretende apresentar ao público formas diferentes de expressão, sem limitar a arte às apresentações mais conhecidas, como dublagens.
João Goulart, que usa o nome Pamdora Medonha nos palcos, é fundador do coletivo Traga e participa da organização do Madre. Segundo ele, o “E” do nome representa experimental. A ideia é explorar a arte drag sem regras fixas, com artistas atuando em linguagens variadas.
A programação terá, além de performances, um show de rock. Para Goulart, a presença de uma drag cantora nesse formato amplia as possibilidades da linguagem artística e leva a cena para um ambiente teatral.
Arte como resistência
Diddy afirma que a carreira no interior envolve dificuldades para formar público e encontrar espaços de apresentação. Os eventos drag, segundo ele, se concentram principalmente em Sorocaba e seguem em direção à capital paulista. A mostra em Tatuí busca criar novas oportunidades de encontro entre artistas e espectadores.
A curadoria do Madre também foi pensada a partir da recuperação de Diddy e da valorização da vida. Goulart diz que foram selecionados artistas ligados à história do coletivo Traga, criado em 2016, incluindo nomes de outras cidades.
O organizador relaciona a dificuldade de expansão da cultura queer no interior à falta de parcerias com o poder público e de políticas de incentivo. Ele afirma que o coletivo não teve parcerias públicas ao longo de sua trajetória e que o edital de Tatuí apareceu em um cenário com poucas alternativas.
Para Goulart, a diferença de acesso entre a capital e as cidades do interior afeta a circulação de artistas, pessoas e recursos. Na avaliação dele, os municípios precisam criar políticas coletivas para fortalecer artistas e comunidades LGBTQIA+. “É um projeto de luta e resistência”, disse.
A realização no Teatro Procópio Ferreira é vista pelos organizadores como uma forma de ocupar um espaço pouco habitual para a comunidade drag. O desafio, segundo Diddy, é conquistar o público gradualmente, à medida que as pessoas conhecem as artistas, se identificam com as propostas e passam a frequentar os eventos.



