Vídeos que associam comportamentos cotidianos a transtornos mentais têm estimulado autodiagnósticos nas redes sociais. Conteúdos sobre TDAH, autismo e borderline apresentam listas de sinais que podem ser reconhecidos por muitas pessoas, mesmo sem avaliação profissional.
O fenômeno é descrito por pesquisadores como patologização da vida: experiências, emoções e sofrimentos comuns passam a ser interpretados principalmente como sintomas de doenças. O psiquiatra Rossano Cabral Lima, professor do Instituto de Medicina Social da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), afirma que é necessário reconhecer o sofrimento, mas critica a transformação dos diagnósticos na explicação predominante para qualquer mal-estar ou traço de personalidade.
“Mas a gente tem que ter uma mente aberta e crítica para essa tentativa de responder a esse mal-estar exclusivamente ou principalmente a partir dos diagnósticos psiquiátricos”, diz Lima.
Segundo o psiquiatra, a classificação pode colocar no mesmo grupo pessoas com histórias diferentes e deixar o contexto de cada sofrimento em segundo plano. Ele chama de “psiquiatria de checklist” a lógica em que a soma de uma quantidade mínima de sintomas parece suficiente para indicar uma conclusão. Nesse cenário, pacientes podem chegar ao consultório convencidos do diagnóstico e buscar apenas uma confirmação médica.
O alcance dos vídeos
Um artigo publicado em 2025 no Journal of Autism and Developmental Disorders examinou 150 vídeos do TikTok sobre autismo na vida adulta. Entre os 116 conteúdos que apresentavam traços ou sintomas, 76 relacionavam o autismo a comportamentos comuns, como sentir cansaço depois de interações sociais.
Os vídeos reuniram mais de 1,1 bilhão de visualizações. A média foi de 7,18 milhões por vídeo, com taxa de engajamento de 20,6%. A maioria, 95%, foi produzida por pessoas que se identificavam como autistas ou eram consideradas autistas pelos pesquisadores. Apenas um conteúdo havia sido feito por um profissional de saúde.
Para a psicóloga Flávia Albuquerque, autora do livro “Despatologiza” (Rocco), esse tipo de publicação oferece autoconhecimento, identificação e pertencimento em poucos minutos. Procrastinar, esquecer compromissos, perder a concentração ou se incomodar com sons e texturas são experiências comuns, o que facilita a identificação do público.
O psicólogo Horácio Goes Amici estudou o tema em sua dissertação de mestrado na USP (Universidade de São Paulo). Na pesquisa publicada em 2023, ele analisou 31 vídeos em português sobre ansiedade, depressão e TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade), todos com mais de 700 mil curtidas no TikTok. Foram escolhidos os nove vídeos mais visualizados, três sobre cada transtorno, além dos dez primeiros comentários de cada publicação, em um total de 90 comentários.
O estudo apontou predominância de criadores sem formação em saúde, falta de referências bibliográficas e uso de listas de comportamentos cotidianos e genéricos para explicar os transtornos. Nos comentários, apareceram autodiagnósticos e a utilização do diagnóstico para explicar dificuldades e reduzir a culpa associada às cobranças por desempenho.
Diagnóstico exige avaliação
O diagnóstico de transtornos mentais não é confirmado por exames de sangue, de imagem ou genéticos. O psiquiatra Antonio Geraldo da Silva, presidente da ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria), afirma que a avaliação deve incluir diagnóstico diferencial, considerando se os sinais estão ligados a outra doença ou a uma experiência dentro da normalidade. Também devem ser analisados a intensidade, a duração e o impacto dos sintomas.
Lima alerta que avaliações apressadas podem contribuir para o excesso de prescrição de psicofármacos. Silva chama atenção ainda para a automedicação, que pode ocorrer quando alguém preenche questionários, conclui que tem um transtorno e começa a usar medicamentos sem avaliação adequada.
A crítica à patologização não significa negar a existência de transtornos mentais ou a necessidade de tratamento. Silva afirma que quadros graves podem causar sofrimento intenso e exigir acompanhamento médico. O desafio é separar doenças de experiências comuns, evitando tanto a banalização dos diagnósticos quanto a negligência de quem precisa de cuidado.
Albuquerque defende que a afirmação “é isso que eu tenho” seja transformada em pergunta. Em vez de concluir sozinho que tem determinado transtorno, o indivíduo pode relatar o sofrimento e procurar uma escuta profissional para entender o que está acontecendo. Para a psicóloga, o diagnóstico também pode legitimar a busca por ajuda, adaptações e limites, além de aproximar pessoas com experiências semelhantes.



