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Voto feminino vira alvo de influenciadores e entra em disputas políticas

Declarações contra a participação das mulheres nas eleições circulam em podcasts, redes sociais e grupos conservadores no Brasil e nos Estados Unidos.

Voto feminino vira alvo de influenciadores e entra em disputas políticas
Foto: Montagem/BBC

Declarações que questionam o voto feminino passaram a circular em programas, cortes de vídeos e podcasts com milhares de interações. As mensagens atribuem às mulheres parte dos problemas da sociedade, associam o sufrágio a dificuldades enfrentadas pelos homens e defendem modelos em que a decisão política da família caberia ao homem.

A ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal, afirma que retirar o direito de voto das mulheres seria inconstitucional. Segundo ela, a Constituição brasileira teria de ser rasgada para que o sufrágio feminino fosse extinto. A ministra também disse que a democracia protege até a manifestação de opiniões contrárias a direitos democráticos.

Redes de influência e participação política

O influenciador Paulo Figueiredo, ligado à família Bolsonaro, criticou em junho a qualidade do voto das mulheres. No fim do mesmo mês, afirmou em uma live que mulheres votam estatisticamente mal, especialmente as solteiras, e que as mais jovens escolhem cada vez mais candidatos de esquerda. Flávio Bolsonaro repudiou a declaração e disse que a direita deveria tentar convencer as mulheres de suas ideias.

No Brasil, o voto feminino entrou em vigor por decreto em 1932. Hoje, o direito ao voto é universal. A professora Tatiana Vargas-Maia, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, avalia que atacar o voto das mulheres também significa questionar a própria democracia. Para ela, a repetição desse discurso pode fazer com que a ideia de que a democracia não funciona seja naturalizada.

O tema aparece em comunidades da chamada machosfera e da cultura redpill, que valorizam um modelo de masculinidade dominante e defendem vigilância constante sobre as intenções das mulheres. Renato Amoedo, conhecido como Renato 38ão, tinha mais de 900 mil seguidores no Instagram em agosto. O perfil deixou de estar disponível, e ele afirmou que a conta foi derrubada.

Amoedo critica o voto de mulheres não casadas e defende que estudo e trabalho não sejam prioridades na vida feminina. Em um podcast, relacionou a criação do direito de voto às mulheres ao surgimento do Estado do bem-estar social moderno. Ele também afirmou que a função mais valiosa de uma mulher seria gerar filhos e, em 2022, disse não ver problema em um casamento entre um homem de 50 anos e uma criança de oito, caso os pais concordassem.

O discurso chega a partidos e podcasts

O Redcast, apresentado por Junior Masters, tem pouco mais de um milhão de inscritos no YouTube e surgiu voltado ao público da machosfera. Em uma edição de janeiro de 2026, Ana Hering, integrante do Movimento Brasil Livre e candidata a deputada federal por São Paulo pelo Missão, afirmou que o mundo começou a piorar quando as mulheres passaram a dar opinião e a ser ouvidas.

Hering disse depois que fazia uma piada ao repetir uma declaração de Masters, segundo a qual o voto feminino seria um erro da democracia ocidental. Ela afirmou que o direito das mulheres está consolidado há quase um século e que esse não é seu posicionamento. Masters declarou que não é contra o voto feminino, mas contra o voto de forma geral, e não detalhou a afirmação.

Na mesma edição, Hering disse que as mulheres se interessam menos por política e tendem a comprar discursos prontos. Ela não classificou esse trecho como piada. Masters afirmou que o cérebro feminino funciona com base na empatia, enquanto o masculino seria sistemático.

A neurocientista Suzana Herculano-Houzel, pesquisadora da Universidade Vanderbilt, contesta essa explicação. Para ela, os cérebros de homens e mulheres são essencialmente iguais, com diferenças em regiões específicas ligadas aos comportamentos sexuais, sem relação com a maneira de tomar decisões.

Uma proposta de voto familiar também aparece no sexto fascículo do Livro Amarelo, publicação que reúne ideias do Missão, partido de Renan Santos e Ana Hering. O material apresenta a família como célula política e questiona o direito universal ao voto. A proposta prevê que a decisão final sobre o voto da família fique com o homem responsável pela casa.

A assessoria de Renan Santos e o Missão não responderam se os fascículos representam o plano de governo do candidato ou se ele apoia a democracia familiar. O sexto fascículo foi comprado no site do partido e recebido em 21 de julho; a referência aparece entre as páginas 127 e 135. Em entrevista, Santos afirmou que o voto familiar não está em seu programa.

Um grupo de deputadas federais pediu à Procuradoria-Geral da República uma apuração sobre a proposta e sobre as falas de Paulo Figueiredo, para verificar se elas intimidam mulheres ou deslegitimam sua participação nas eleições.

Mulheres que defendem abrir mão do voto

Fernanda Guardian, sócia de uma consultoria de investimentos e com 300 mil seguidores no Instagram, afirma que abriria mão do próprio voto. Ela mora em Miami e relaciona o comportamento eleitoral das mulheres à preferência pela esquerda. Guardian não quis conversar sobre as declarações.

Pietra Bertolazzi, que tem 1,3 milhão de seguidores, defende a submissão feminina ao homem. Ela trabalhou com moda, foi DJ internacional, participou de um reality show de casais e atuou na Prefeitura de São Paulo durante a gestão João Doria. Atualmente, oferece cursos on-line sobre organização da rotina, desenvolvimento pessoal e orientação espiritual pela fé católica.

Depois da repercussão de uma declaração contra o voto feminino, Bertolazzi disse que defende uma monarquia e é contra o Estado moderno, mas negou ter defendido retirar das mulheres o direito de votar. Ela também afirmou que muitas mulheres buscam uma falsa liberdade e uma ilusão de poder no sistema democrático.

O missionário Joffre Swait, da Missão Guanabara, defende uma organização familiar em que o homem lidera e a mulher se submete ao marido. Swait apoia as ideias do pastor americano Douglas Wilson, que defende o chamado voto familiar. Em caso de divergência, Wilson disse que decidiria o próprio voto e o da esposa.

Wilson considera uma ideia terrível a 19ª emenda da Constituição dos Estados Unidos, que concedeu às mulheres americanas o direito de votar em 1920. Swait afirmou que retirar a emenda reduziria, mas não eliminaria, a participação feminina.

Nos Estados Unidos, o influenciador Nick Fuentes, apoiador de Donald Trump, afirmou em um podcast que eliminaria o direito ao voto de centenas de grupos, incluindo as mulheres. Ele tem 1,3 milhão de seguidores no X e já foi recebido pelo presidente americano em um jantar.

Para Tatiana Vargas-Maia, esse movimento ainda não está perto de retirar o voto feminino, mas produz um risco silencioso ao colocar em dúvida a participação igualitária nas decisões políticas. Cármen Lúcia afirma que direitos fundamentais precisam ser continuamente protegidos e que a ausência das mulheres nas decisões imporia um ônus a toda a sociedade.

Texto produzido pela Redação Nexo Econômico com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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