LIVERPOOL — O mercado de cartas de Pokémon passou a atrair investidores e movimentar valores de milhões de dólares, impulsionado pela nostalgia dos fãs da primeira geração, pela escassez de exemplares antigos e pelo aumento da renda disponível entre os compradores. Em fevereiro, uma carta Pikachu Illustrator, de 1998, foi vendida por US$ 16,5 milhões (R$ 85,14 milhões), o maior valor já registrado para uma carta do tipo.
Jordan Dunne deixou, em 2025, o emprego de analista de dados em um escritório de advocacia em Chester, na Inglaterra, depois que o comércio de cartas se tornou mais lucrativo que seu trabalho. Morador de Liverpool, ele viaja a feiras internacionais para comprar exemplares antigos e revendê-los pela internet.
Nas transmissões ao vivo no eBay, Dunne já vendeu cartas individuais por mais de 2.000 libras (R$ 13,9 mil). As transmissões podem gerar até 60 mil libras (R$ 417,6 mil) em vendas em poucas horas. A Big Box Gaming, empresa considerada uma microempresa, deve alcançar cerca de 4 milhões de libras (R$ 27,8 milhões) em vendas neste ano, contra 1,2 milhão de libras (R$ 8,35 milhões) em 2025.
“Nos últimos 12 meses, o mercado ficou absurdo”, disse Dunne. Segundo ele, banqueiros, investidores, advogados e adeptos de criptomoedas passaram a comprar cartas sem considerar o preço.
Nostalgia e escassez
O Pokémon foi o termo mais buscado no primeiro semestre do ano na categoria de colecionáveis do eBay. Depois da venda recorde da carta Pikachu Illustrator, várias outras cartas individuais ultrapassaram US$ 1 milhão (R$ 5,17 milhões).
Adam Ireland, chefe global de colecionáveis do eBay, afirmou que o mercado combina a lembrança da infância com a possibilidade de compra criada pela renda disponível na vida adulta. Para ele, os valores indicam que parte dos compradores passou a considerar as cartas uma classe de ativo.
A Chase Society estima em quase US$ 9 bilhões (R$ 46,44 bilhões) o valor máximo combinado de mercado de cartas de Pokémon autenticadas e avaliadas profissionalmente. As negociações envolvem o Japão, país de origem da franquia, a Europa e os Estados Unidos. O Reino Unido se consolidou como um mercado relevante para cartas em inglês, enquanto a maior liquidez permanece nos EUA, segundo comerciantes.
O interesse cresceu durante a pandemia de Covid-19, quando os lockdowns levaram novos compradores aos itens colecionáveis. A procura diminuiu depois da reabertura, e muitas cartas perderam valor, mas a infraestrutura e o público formado nesse período permaneceram.
Em 2023, a Pokémon Company lançou a coleção 151, baseada em personagens como Bulbasaur, Snorlax e Charizard. No ano seguinte, a empresa lançou uma versão para celular do jogo de cartas colecionáveis. Comerciantes esperam que o aniversário de 30 anos, no próximo mês, gere uma nova onda de interesse.
Diferença entre cartas antigas e modernas
As cartas antigas concentram o maior potencial de valorização porque a quantidade impressa décadas atrás é limitada. Já a Pokémon Company continua produzindo bilhões de cartas novas todos os anos, o que amplia a oferta dos modelos modernos.
A avaliação do estado de conservação é decisiva. A americana PSA atribui notas de 1 a 10, considerando arranhões, danos nas bordas e a centralização da imagem. Apenas 35 exemplares de uma versão de Pikachu da coleção Legendary Collection, de 2002, receberam nota PSA 10.
Uma carta de Pikachu vendida recentemente por cerca de 250 mil libras (R$ 1,74 milhão) com nota PSA 10 valia aproximadamente 15 mil libras (R$ 104,4 mil) quando recebeu PSA 9, segundo um comerciante.
A procura também pressionou as empresas de avaliação. A PSA processou mais de 1,3 milhão de cartas de Pokémon em agosto, dez vezes o volume registrado no mesmo mês de 2021, segundo a GemRate. Em maio, a empresa interrompeu o recebimento de cartas de menor valor por limitações de capacidade.
Na Card Con, realizada em setembro em Farnborough, no condado de Hampshire, o público chegou a 10 mil pessoas, o dobro do ano anterior. O evento reuniu compradores com caixas protegidas por códigos e comerciantes preocupados com a segurança de suas coleções.
Dunne mantém seu estoque em um cofre subterrâneo e viaja de avião para entregar pessoalmente cartas valiosas. Tom Lake, comerciante de Sutton, no sul de Londres, vendeu recentemente uma carta Mario Pikachu por cerca de 20 mil libras (R$ 139,2 mil), depois de comprá-la por 30 libras (R$ 208,8) oito anos antes.
Durante três semanas em agosto, Dunne também vendeu três cartas de sua coleção pessoal por cerca de 300 mil libras (R$ 2,09 milhões), após tê-las comprado por metade desse valor um ano antes. O movimento alcança ainda colecionadores que não têm grandes fortunas. Ethan Lidgard, carpinteiro de 25 anos de Hampshire, voltou a comprar cartas e passou a guardar coleções antigas em condição impecável para transmiti-las aos filhos no futuro.



