A China amplia os investimentos em inteligência artificial enquanto enfrenta desemprego elevado entre jovens, queda no consumo, retração do mercado imobiliário e deflação. Economistas chineses, inclusive alguns ligados ao governo, afirmam que a concentração de recursos na tecnologia pode deixar de atender às necessidades mais imediatas da economia.
A taxa de desemprego entre jovens, sem considerar estudantes, chegou a 18,9% em agosto. No primeiro semestre, as vendas de carros no mercado doméstico recuaram 20% na comparação anual, enquanto as vendas de imóveis caíram 14%, prolongando uma sequência de quedas.
Alertas dentro do governo
Li Daokui, ex-conselheiro do banco central chinês e professor da Universidade Tsinghua, disse em julho que a economia estava "fria demais". Para ele, o avanço dos setores de alta tecnologia não seria suficiente para sustentar a atividade econômica como um todo.
Em um fórum realizado em junho, Liu Shijin, também ex-conselheiro do banco central, sugeriu elevar de US$ 30 (R$ 153,21) para US$ 150 (R$ 766) por mês o benefício básico pago a aposentados de áreas rurais. A medida, segundo ele, ajudaria a fortalecer o consumo.
No mesmo encontro, Huang Haizhou, conselheiro do banco central, defendeu estímulos à inflação moderada e à rentabilidade das empresas antes de um avanço tecnológico sustentado. “Um país preso à deflação não consegue alcançar inovação tecnológica”, afirmou.
Os alertas ocorreram antes da reunião de meio de ano do Politburo, órgão de cúpula do Partido Comunista chinês. Economistas foram advertidos a não adotar um tom excessivamente pessimista, e alguns chegaram a ser censurados ou silenciados. A participação de pessoas ligadas ao governo nas críticas indicava preocupação com os rumos da economia.
Recursos para a inteligência artificial
O valor exato do apoio estatal à IA é difícil de calcular. O AI Index Report, da Universidade Stanford, estimou que fundos de investimento criados pelo Estado aplicaram US$ 184 bilhões (R$ 939,67 bilhões) em empresas do setor entre 2000 e 2023.
No ano passado, Xi Jinping orientou o governo a usar incentivos fiscais, contratos públicos, financiamento e acesso à infraestrutura para impulsionar a tecnologia. A China também se prepara para investir cerca de US$ 295 bilhões (R$ 1,506 trilhões) nos próximos cinco anos na construção de data centers, que serão operados por empresas estatais.
Na reunião encerrada em 30 de julho, o Partido Comunista reconheceu a necessidade de medidas “proativas” para estimular a economia e prometeu desenvolver uma “nova economia inteligente”. Ao mesmo tempo, manteve uma política de estímulos graduais. Os veículos estatais não divulgaram uma meta para o crescimento doméstico.
O investimento em ativos fixos, que inclui infraestrutura, imóveis e equipamentos, recuou 4,1% nos primeiros cinco meses do ano. Segundo Li Daokui, uma contração semelhante havia ocorrido apenas duas vezes na história da República Popular: em 1961, durante a Grande Fome, e em 1967, no auge da Revolução Cultural.
A aposta de Xi
Xi afirmou, em um discurso em março, que o desempenho do país não deveria ser avaliado apenas pelo crescimento do PIB. Na visão do líder chinês, o aumento do poderio nacional e a expansão de setores avançados também são medidas de progresso. Assim, um crescimento mais lento não representaria necessariamente fracasso se o avanço tecnológico continuasse.
A estratégia não prioriza, neste momento, a ampliação da renda disponível das famílias por meio de dinheiro, vouchers de compras ou uma rede maior de proteção social. A aposta é que a tecnologia conduzida pelo Estado modernize setores tradicionais e gere valor econômico no futuro, embora esses ganhos possam levar anos para aparecer.
No primeiro semestre de 2026, os investimentos em serviços de informação, setor que o Escritório Nacional de Estatísticas afirma ser impulsionado pela IA, cresceram 19,2%. A tecnologia pode transformar a economia chinesa e fortalecer a posição do país na disputa com os Estados Unidos.
O custo da escolha
Xu Chenggang, economista chinês da Universidade Stanford, afirmou que cada recurso destinado à tecnologia apoiada pelo Estado deixa de ser usado em emprego e consumo. Em uma crise como a enfrentada pela China, disse ele, estímulos voltados à criação de postos de trabalho poderiam elevar a renda e o gasto das famílias.
A concentração em IA também pode ampliar o desemprego se a tecnologia reduzir a demanda por trabalhadores. Para Xu, esse risco é relevante porque o país já enfrenta dificuldades no mercado de trabalho e no consumo.
O sociólogo Sun Liping comparou a situação à trajetória da União Soviética, cuja economia chegou a equivaler a cerca de 70% da americana e superou os Estados Unidos em alguns campos científicos e tecnológicos antes de estagnar.
Sun escreveu que a China consegue produzir grandes quantidades de bens sofisticados, mas questionou quem terá condições de comprá-los. Sem compradores, os produtos não são vendidos, as empresas não obtêm lucro, a renda das famílias não aumenta e o emprego não melhora. Para o sociólogo, esse é o problema central da economia chinesa.

