SÃO PAULO — Jovens de 18 a 29 anos tiveram aumento da renda média e avanço na escolaridade no Brasil, mas continuam em desvantagem no mercado de trabalho em relação aos profissionais mais velhos. A conclusão é de um estudo de Paulo Peruchetti e Janaína Feijó, pesquisadores do FGV Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas), com base em dados da Pnad Contínua, do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
No segundo trimestre de 2026, a renda média mensal do trabalho entre os jovens foi de R$ 2.593. O valor é o segundo maior da série histórica iniciada em 2012; o recorde havia sido registrado nos três meses anteriores.
A renda do grupo ficou 37,8% abaixo da média dos trabalhadores de 30 a 59 anos, de R$ 4.167, e 30,6% menor que a média geral do país, de R$ 3.738. Peruchetti estima que, sem o avanço educacional observado nos últimos anos, o rendimento dos jovens seria de R$ 2.381 por mês, cerca de 8% abaixo do valor efetivamente registrado.
Escolaridade e entrada no mercado
A parcela de pessoas de 18 a 29 anos com ensino superior completo passou de 11% no primeiro trimestre de 2012 para 16,8% no segundo trimestre de 2026. No sentido oposto, a proporção sem instrução ou com ensino fundamental incompleto caiu de 17,6% para 5,6%.
Para Peruchetti, a educação ajudou a impedir que a situação dos jovens piorasse em relação a outros grupos. O pesquisador também afirma que a qualificação tende a ganhar importância com o avanço da inteligência artificial e as mudanças no mercado de trabalho.
Um estudo de Daniel Duque, também do FGV Ibre, apontou redução de empregos de entrada no mercado brasileiro associada à inteligência artificial, atingindo funções tradicionalmente ocupadas por jovens. Para Peruchetti, a falta de experiência pode ampliar a dificuldade de adaptação às novas tecnologias.
A trajetória de Emily Carla, 20, ilustra parte desse cenário. Moradora de Osasco, na Grande São Paulo, ela estudou em escolas públicas de bairros periféricos, participou de cursos e projetos de formação e conseguiu uma bolsa integral em uma faculdade privada de jornalismo. Ao buscar vagas, porém, enfrentou restrições por estudar em período integral ou ainda não ter a escolaridade exigida.
Desemprego e informalidade
A taxa de desemprego entre os jovens foi de 9,2% no segundo trimestre de 2026, a segunda menor da série iniciada em 2012. O menor nível foi registrado nos três últimos meses de 2025, quando ficou em 8,8%.
Apesar da queda, o desemprego dos jovens foi mais que o dobro do observado entre trabalhadores de 30 a 59 anos, de 3,8%, e permaneceu acima da média nacional, de 5,4%.
A informalidade atingiu 37,4% dos trabalhadores de 18 a 29 anos no segundo trimestre de 2026. O percentual é igual à média do país e superior ao registrado entre pessoas de 30 a 59 anos, de 34,8%. O indicador inclui trabalhadores sem carteira assinada ou CNPJ e atividades como os chamados bicos.
A combinação entre informalidade e menor experiência ajuda a explicar por que a renda dos jovens fica abaixo da de outros grupos etários, segundo o estudo. Entre as ocupações que mais empregam essa faixa estão balconistas e vendedores de lojas, com 1,7 milhão de pessoas ou 6,6% do total; escriturários gerais, com 1,5 milhão ou 6,1%; e trabalhadores elementares da construção de edifícios, com 617,8 mil ou 2,5%.
Qualificação e transição para o trabalho
A estudante Thaina Silva, 25, associou cursos de cozinha e finanças do IAG (Instituto Anchieta Grajaú) à abertura e posterior formalização de uma lanchonete em São Paulo. Antes, ela havia trabalhado como cuidadora de idosos e depois passou a vender bolos de pote e cachorro-quente em casa. Nove meses depois, mudou o negócio para um ponto maior e começou a estudar inglês.
A inserção profissional dos jovens frequentemente ocorre em serviços de produtividade mais baixa e com salários menores, afirma Peruchetti. O economista Ely José de Mattos, professor da Escola de Negócios da PUC-RS, diz que o desemprego mais alto entre jovens é uma característica histórica, mas que a diferença em relação aos trabalhadores mais velhos é maior no Brasil do que em parte do exterior.
Mattos também afirma que setores como a indústria, que exigem maior formação, empregam menos jovens. Segundo ele, a inteligência artificial já substitui funções técnicas de nível júnior em áreas como tecnologia da informação. A questão, na avaliação do professor, é como formar os profissionais seniores do futuro se as posições de entrada forem reduzidas.



