MARANHÃO — A atuação de Flávio Dino em processos relacionados ao Maranhão reacendeu o debate sobre os limites entre sua trajetória política e o trabalho como ministro do Supremo Tribunal Federal (STF). O grupo político que ele liderou no estado está em conflito com o do governador Carlos Brandão (MDB), seu ex-vice, que lançou o sobrinho Orleans Brandão (MDB) ao governo.
Dino governou o Maranhão por dois mandatos, de 2015 a 2022. Antes de chegar ao STF, foi juiz federal por 12 anos, deixou a magistratura para disputar sua primeira eleição, em 2006, e permaneceu na política por 18 anos. Foi deputado federal pelo PC do B, ministro da Justiça no governo Lula e assumiu a cadeira no Supremo em 2024.
Na sabatina no Senado, em dezembro de 2023, Dino afirmou que deixaria a vida política caso fosse aprovado para o tribunal. A declaração voltou a ser discutida após uma sessão na última terça (15), em que pediu vista e suspendeu a análise sobre a possibilidade de investigação do ministro Alexandre de Moraes por sua relação com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
A atuação de Dino foi criticada por Conrado Hübner Mendes e transformou o ministro em alvo do bolsonarismo. Entre setores da esquerda, ele foi visto como uma liderança combativa, e surgiram manifestações favoráveis a uma eventual candidatura à Presidência em 2030.
Disputa no Maranhão
O vice-governador Felipe Camarão (PT), candidato ao governo do Maranhão e aliado de Dino, defendeu a possibilidade de o ministro voltar à política no futuro. “O Brasil merece ter ele como presidente um dia, depois que acabar a missão dele no Supremo”, afirmou.
Camarão ocupou quatro secretarias nos governos de Dino e foi lançado informalmente pelo então governador como candidato. Em uma aula no ano passado, Dino disse que Camarão formaria uma “chapa imbatível” com a professora Teresa Helena Barros como vice.
A disputa entre os grupos tem reflexos no Judiciário. Processos decisivos para a política maranhense estão sob relatoria de Dino no STF, e adversários afirmam que ele usa a função para influenciar o poder no estado. Entre os casos estão ações envolvendo aliados de Brandão, como investigações sobre o assassinato de uma pessoa em um centro comercial de São Luís e sobre regras para indicações ao Tribunal de Contas do Estado (TCE).
Decisões recentes atingiram o grupo do governador. Dino afastou Daniel Brandão, sobrinho de Carlos Brandão, da presidência do TCE, e determinou a prisão domiciliar e o afastamento do secretário Raimundo Cutrim, delegado aposentado e aliado dos Brandão.
A assessoria do ministro afirmou que não há motivo legal para seu impedimento: “As hipóteses legais de impedimento estão previstas no Código de Processo Penal e não se aplicam ao ministro no caso em questão”.
Áudios e negociações
A desconfiança sobre a permanência de articulações políticas de Dino no Maranhão aumentou após o vazamento, em outubro de 2025, de áudios em que integrantes do grupo dinista aparentavam negociar uma pacificação com Brandão. As conversas relacionavam a retomada de indicações para o TCE-MA à escolha de candidatos a prefeito em municípios como Colinas.
Os nomes citados nas negociações foram os deputados federais Márcio Jerry (PC do B-MA) e Rubens Junior (PT-MA), além de Diego Galdino, ex-chefe da Casa Civil do governo Dino. Galdino teria dito que recebeu orientações do ministro para o acordo, mas não se manifestou.
Rubens Junior confirmou que procurou Dino a pedido de Brandão, mas afirmou que o ministro disse não estar mais na política e que questões judiciais deveriam ser tratadas nos autos. O deputado também declarou que o caso é investigado pela Polícia Federal. Jerry chamou os áudios de criminosos.
O vazamento levou à demissão de Rubens Pereira, pai de Rubens Junior, do governo e aprofundou a ruptura entre os grupos. Em outro áudio, uma voz semelhante à de Rubens afirma que Dino apoiaria Camarão porque o vice-governador seria como um filho para ele.
A assessoria de Dino informou que o ministro não trata de assuntos políticos e está afastado dessa atividade desde fevereiro de 2024. Ney Bello, juiz federal do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1) e amigo de Dino, também foi citado em mensagens atribuídas a ele. Procurado, não respondeu.
Em outubro de 2025, Lula também mencionou Dino como parte da aliança política ligada às eleições de 2026, embora ele já ocupasse uma cadeira no STF havia um ano e oito meses.



