SÃO PAULO — A Polícia Federal identificou uma estrutura financeira comum entre operações atribuídas ao dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, e empresários investigados por ligação com o Primeiro Comando da Capital (PCC) no setor de combustíveis. Segundo os investigadores, fundos e empresas eram usados para movimentar recursos, alterar avaliações de ativos e ocultar patrimônio.
O elo entre os grupos, de acordo com documentos enviados à 7ª Vara Criminal Federal de São Paulo, era a Trustee Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários e seu diretor, Artur Martins de Figueiredo. Os documentos tiveram o sigilo retirado pelo Supremo Tribunal Federal nesta semana.
Conversas encontradas pela PF
A conexão apareceu durante a Operação Quasar, que investigava o uso de fundos para esconder bens e recursos atribuídos a Roberto Augusto Leme da Silva, conhecido como Beto Louco, e Mohamad Hussein Mourad, o Primo. Os dois são apontados como chefes de um esquema no setor de combustíveis.
Durante as buscas, a PF apreendeu o celular de Artur. Nas mensagens analisadas, Ascendino Madureira Garcia, conhecido como Dino, repassava a Artur orientações atribuídas a Vorcaro e cobrava a execução das operações por meio dos fundos administrados pela Trustee.
A descrição feita pela PF indica que Vorcaro seria o beneficiário final, Ascendino atuaria como intermediário e Artur cuidaria da execução técnica e da formalização dos documentos. Em uma das conversas, depois de receber uma planilha com fundos, empresas e cotistas, Ascendino respondeu com uma figurinha de Leonardo DiCaprio no filme “O Lobo de Wall Street”.
Para os investigadores, as mensagens indicam o uso de estruturas societárias e financeiras para fazer ajustes contábeis, modificar valores de ativos e conferir aparência legítima a transações sob suspeita.
Investigação sobre o setor de combustíveis
A Operação Quasar também apurava se fundos administrados pela Trustee, pela Reag e pela antiga Ruby Capital serviam para esconder os verdadeiros donos de imóveis, empresas e outros ativos. Parte desses fundos mantinha negócios com empresas atribuídas a Mohamad e a pessoas ligadas a ele, entre elas a Aster Petróleo e a Copape.
A PF afirma que Beto Louco seria integrante do PCC e proprietário de fato do grupo econômico, enquanto Mohamad atuaria no núcleo operacional. Os recursos do setor de combustíveis seriam transferidos para fundos e empresas organizados em diferentes camadas. Assim, os bens deixariam de aparecer diretamente em nome dos beneficiários e passariam a ser formalmente dos fundos.
A Trustee administrava parte dos fundos apontados como instrumentos dessa blindagem patrimonial. Depois que as mensagens sobre o Banco Master foram encontradas, a PF pediu o compartilhamento das provas entre os inquéritos, que até então tinham objetos diferentes. A Justiça Federal autorizou a medida.
Situação da Trustee
A liquidação extrajudicial da Trustee foi determinada pelo Banco Central em 3 de setembro deste ano. A empresa tinha histórico de ligação com Maurício Quadrado, ex-sócio do Banco Master, e prestava serviços à instituição.
Ao determinar também a liquidação da Banvox, ligada a Quadrado, o BC afirmou ter encontrado “graves violações” às normas aplicáveis às instituições financeiras.
A defesa de Mohamad classificou as acusações da Operação Carbono Oculto como baseadas em “fatos não provados” e em uma “narrativa desconexa da realidade”. A defesa de Beto Louco disse que demonstrará a improcedência das acusações. Não há, no material, manifestação das defesas de Daniel Vorcaro, Ascendino Madureira Garcia, Artur Martins ou da Trustee.



