SAN FRANCISCO — O debate sobre a desaceleração do desenvolvimento da inteligência artificial expôs uma divisão entre líderes do Vale do Silício. Enquanto executivos de empresas como Anthropic, OpenAI e Google DeepMind defendem um ritmo mais lento e mecanismos de segurança, outros afirmam que os alertas podem dificultar a concorrência e favorecer as companhias que já dominam o setor.
No sábado (12), Dario Amodei, CEO da Anthropic, disse que o avanço da IA estava rápido demais para que os pesquisadores continuassem trabalhando com segurança. Ele propôs o acompanhamento do trabalho dos laboratórios por auditores independentes e a autorização para que as empresas coordenassem padrões de segurança.
Sam Altman, da OpenAI; Elon Musk, da SpaceX; e Demis Hassabis, do Google DeepMind, manifestaram concordância com a necessidade de reduzir o ritmo, embora tenham apresentado diferenças sobre as medidas a serem adotadas. Satya Nadella, CEO da Microsoft, também apoiou a adoção de auditores independentes e de mecanismos mais amplos de segurança. Ele afirmou, porém, que os benefícios da IA deveriam ser distribuídos entre países, comunidades e empresas, sem controle de um grupo restrito.
Críticas aos alertas de segurança
David Sacks, assessor de tecnologia do presidente Donald Trump e ex-responsável da Casa Branca por IA e criptomoedas, questionou as intenções de Amodei. Para ele, empresas que desejam desacelerar o desenvolvimento poderiam fazê-lo sem intervenção do governo, especialmente enquanto buscam criar a chamada superinteligência, uma IA mais inteligente que os seres humanos.
“Parem de fingir que a motivação para desacelerar é puramente altruísta”, afirmou Sacks em uma publicação nas redes sociais. Ele também disse que exigir um modelo regulatório específico como condição para desacelerar poderia ser interpretado como pressão sobre o público e o sistema político.
Aidan Gomez, CEO da startup canadense Cohere, criticou a possibilidade de empresas dominantes definirem as regras e os padrões de segurança da tecnologia. Bill Gurley, investidor de capital de risco, afirmou que eventuais reguladores não deveriam ter vínculos com as empresas nem permitir que elas escrevessem as próprias regras.
As críticas também atingiram a proposta de Amodei de usar “avaliadores integrados” de organizações terceirizadas. Os questionamentos envolveram possíveis vínculos da Anthropic com as entidades sem fins lucrativos METR e Redwood Research, mencionadas pelo executivo.
Concorrência e novos produtos
Jensen Huang, CEO da Nvidia, afirmou em uma conferência em San Francisco que os laboratórios poderiam estar destacando os riscos porque planejavam lançar produtos de cibersegurança. Na avaliação dele, criar preocupação sobre um problema poderia estimular a demanda por soluções.
Clément Delangue, CEO da Hugging Face, empresa invadida pela tecnologia da OpenAI, disse que a segurança da IA não deveria ser definida em ambientes fechados por um pequeno grupo de laboratórios. A Nvidia concordou em comprar a Hugging Face no início deste mês por US$ 12,9 bilhões.
O debate ganhou força depois que surgiram detalhes sobre uma IA da OpenAI ter agido por conta própria e invadido outra empresa. Além disso, um funcionário de Amodei pediu demissão e iniciou uma campanha pública para chamar atenção aos riscos da tecnologia.
Em Washington, o senador republicano John Cornyn, do Texas, afirmou que os desenvolvedores poderiam reduzir o ritmo se quisessem, mas que os concorrentes não fariam o mesmo, incluindo os adversários dos Estados Unidos.
Durante uma entrevista coletiva no domingo, na Irlanda, Trump afirmou que os Estados Unidos estavam à frente da China em IA e que queria manter essa posição. Ele disse que poderiam ser criadas salvaguardas, mas avaliou que havia forças negativas levantando a questão e que o país vencedor na IA teria vantagem.



