SÃO PAULO — O Nubank enfrenta uma deterioração nos indicadores de crédito ao mesmo tempo em que amplia sua carteira e mantém um ritmo elevado de crescimento. A inadimplência de pessoas físicas no Brasil chegou a 7,8% em julho, alta de 1,1 ponto percentual em um ano, segundo o Banco Central. No Nubank, os atrasos superiores a 90 dias alcançaram 6,9% das operações em junho, avanço de 0,4 ponto percentual ante março.
A instituição cresceu ao oferecer crédito a consumidores que enfrentavam dificuldades para obter cartões em bancos tradicionais. Daniele, 30, autônoma e com renda instável, recebeu três recusas de uma grande instituição ao longo de quase dez anos. Em 2018, com menos de três meses de conta no Nubank, recebeu um cartão com limite de R$ 300. O valor subiu para R$ 700 após seis meses, depois para R$ 1.100 e hoje supera R$ 5.000.
Crescimento e qualidade da carteira
Segundo pesquisa do Data Nubank, a instituição bancarizou 31,5 milhões de pessoas no Brasil, o equivalente a quase 1 em cada 5 adultos do país. Ainda de acordo com a NPS, 6 em cada 10 adultos são clientes do Nubank. Em Roraima, Amapá e no Distrito Federal, a proporção supera 73%.
Em 13 anos, o Nubank passou de startup à segunda maior instituição do país em número de clientes, atrás apenas da Caixa Econômica Federal. Seus ativos totais somaram US$ 82,75 bilhões (R$ 428,4 bilhões), abaixo dos R$ 3,1 trilhões do Itaú e dos R$ 2,4 trilhões do Bradesco.
A carteira de crédito totalizou US$ 39,4 bilhões, alta de 37% no ano. Os cartões responderam por US$ 26 bilhões, os empréstimos sem garantia por US$ 10,3 bilhões e o crédito com garantia por US$ 3,1 bilhões. Com a aceleração do crédito sem garantia, o lucro aumentou 62% em um ano, para US$ 1,9 bilhão (R$ 10 bilhões) no primeiro semestre de 2026.
Analistas do Citi afirmam que os indicadores dos cartões permaneceram estáveis, mas os do crédito pessoal se deterioraram. Para o banco, o debate passou a envolver a capacidade de manter expansão e rentabilidade em um cenário de crédito normalizado, considerando o endividamento das famílias brasileiras. O comprometimento de renda e a esperada desaceleração da economia no próximo ano também podem ampliar a inadimplência.
Desenrola e custos de operação
O Novo Desenrola Brasil terminou em agosto. De acordo com o Nubank, o programa reduziu em 5% o custo de crédito da instituição, com economia de US$ 85 milhões. Dados do FGO apontam que o banco foi o maior participante, com cerca de 29% dos contratos renegociados a prazo.
Foram mais de 656 mil renegociações parceladas no Nubank. Depois dos descontos, os contratos somaram R$ 1,2 bilhão. O banco também foi beneficiado pela garantia do governo nas renegociações.
Thiago Batista, líder do departamento de análise e pesquisa de ações do UBS BB Investment Bank, afirmou que os públicos atendidos pelo programa coincidem com a base do Nubank. Cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal sem garantia estão entre os produtos alcançados pelo Desenrola.
Para o Itaú BBA, o modelo do Nubank permite operar com inadimplência mais alta que a dos bancos tradicionais. Pedro Leduc, analista da instituição, atribui essa capacidade ao custo operacional menor, associado à quantidade de funcionários e à ausência de agências. Ele estima que um empréstimo pessoal típico do Nubank, de R$ 3.000, atinja o ponto de equilíbrio com cerca de 28% de perdas com crédito. Em um banco de custo mais alto, o percentual seria de 20%.
Leduc avalia que o desafio aumenta na expansão para clientes de média e alta renda. Em empréstimos de até R$ 3.000, a diferença de custo entre o Nubank e um banco tradicional tem impacto relevante no lucro. Em operações de R$ 50 mil, esse efeito é menor.
Rentabilidade e expansão
O retorno sobre o patrimônio líquido do Nubank ficou em 33% na primeira metade deste ano, alta de 5 pontos percentuais em relação a junho 2025. No Itaú, a métrica foi de 24,3%. Analistas consultados pela Bloomberg esperam que a lucratividade recue para 31,5% até o fim de 2026 e para 30,8% em 2027.
O banco também investe na expansão global e na atração de clientes de alta renda. O Ultravioleta atende clientes que gastam mais de R$ 8.000 no cartão ou têm mais de R$ 50 mil investidos. O Croma é voltado a quem gasta a partir de R$ 4.000 no cartão de crédito ou tem R$ 30 mil investidos.
No México, o Nubank projeta investimento total de US$ 4,2 bilhões até 2030. Nos Estados Unidos, iniciou operações neste mês com a ambição de alcançar entre 100 e 150 milhões de americanos.
David Vélez, CEO do Nubank, disse que o Brasil continua sendo prioridade. Segundo ele, a receita média por cliente no país é de US$ 17, ante US$ 45 nos cinco grandes bancos brasileiros, o que permitiria ao Nubank duplicar ou triplicar seu tamanho apenas no mercado brasileiro.



