A concentração das operações entre o Banco de Brasília (BRB) e o Banco Master chegou a 90,31% das carteiras adquiridas pelo banco público em junho de 2025. Dos R$ 21,91 bilhões mantidos nesses negócios, R$ 19,78 bilhões estavam ligados ao Master, segundo a perícia da Polícia Federal (PF).
Os documentos foram divulgados depois que o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), retirou o sigilo das principais investigações. A PF analisou R$ 47,78 bilhões em operações entre as duas instituições. Desse total, R$ 31,74 bilhões correspondiam à venda de carteiras de crédito do Master para o BRB.
Alertas internos e novas compras
Relatórios produzidos dentro do BRB apontaram riscos na instituição. Pareceres de setembro e dezembro de 2024 registraram crescimento de 83,5% nos ativos do Master em 12 meses, para R$ 50,9 bilhões. A carteira de crédito avançou 81,6%, alcançando R$ 21 bilhões, enquanto a reserva para possíveis perdas subiu 82,9%.
Os técnicos classificaram como “muito baixo” o Índice de Basileia do Master. Também apontaram que o caixa representava menos de 10% dos depósitos e que o banco dependia fortemente de plataformas de investimento para captar recursos. Um relatório da RISKBank/Eleven, de novembro de 2024, indicou que o crédito equivalia a 7,4 vezes o patrimônio líquido da instituição.
Apesar dos alertas, as compras ganharam escala depois de 17 de julho de 2024, quando a diretoria do BRB autorizou até R$ 750 milhões para a aquisição de créditos do Master. A perícia não encontrou documentos que comprovassem uma análise ampla, independente e organizada sobre os riscos de concentrar negócios na instituição.
Pagamentos antes das análises
A PF examinou 84 compras de carteiras destinadas a pessoas físicas, no total de R$ 17,58 bilhões. Em 22 operações, que somaram R$ 7,63 bilhões, pelo menos uma avaliação técnica obrigatória foi concluída depois do pagamento. Essas transações representaram 43,41% do valor analisado.
As verificações deveriam tratar da existência dos créditos, da documentação, do risco de inadimplência, do preço, das garantias e do impacto no caixa. Para os peritos, a conclusão posterior reduzia a capacidade de impedir a operação, renegociar valores ou exigir proteção antes da liberação dos recursos.
Em novembro de 2024, o BRB pagou R$ 209,32 milhões por uma operação um dia antes da autorização da diretoria. Em janeiro de 2025, desembolsou R$ 473,49 milhões; as áreas de Contabilidade e Risco terminaram as análises 11 e 14 dias depois, respectivamente.
Operações divididas
A diretoria podia aprovar sozinha negócios de até R$ 750 milhões. Acima desse limite, a decisão deveria passar pelo Conselho de Administração. Segundo a PF, 25 operações autorizadas pela diretoria totalizaram R$ 17,5 bilhões, e 21 delas foram fixadas exatamente em R$ 750 milhões.
Em janeiro de 2025, quatro compras nesse valor somaram R$ 3 bilhões. Algumas foram aprovadas com intervalo de dois dias. Para os peritos, a repetição dos valores, a proximidade entre as decisões e a participação do Master indicavam uma estratégia única que não foi levada ao conselho.
Problemas nas carteiras
O BRB criou, em fevereiro de 2025, um grupo de trabalho para revisar os créditos adquiridos. O primeiro relatório, concluído em abril do ano passado, encontrou dados fictícios, controles manuais, falta de documentos dos empréstimos, ausência de comprovação sobre descontos em folha e contratos sem assinatura dos clientes na amostra analisada. As divergências financeiras chegavam a R$ 1,39 bilhão em valores brutos.
Mesmo depois do relatório, a diretoria autorizou mais R$ 2 bilhões em compras durante abril. Em uma inspeção no Master, técnicos encontraram R$ 15,5 milhões em parcelas já pagas pelos clientes, mas ainda não repassadas ao BRB. O banco reconheceu parte da diferença e transferiu R$ 14,37 milhões durante a visita.
O documento final, concluído em 19 de maio, apontou R$ 265,9 milhões em repasses devidos e mais de 1 milhão de parcelas vencidas, que somavam R$ 316,5 milhões. Ainda assim, o BRB pagou mais R$ 5,23 bilhões ao Master depois dos relatórios internos.
Em 22 de agosto de 2025, duas operações de R$ 45,9 milhões avançaram sem a assinatura do termo e antes da análise da área de Risco. A área concluiu o parecer seis dias depois. Em uma mensagem, o diretor-executivo responsável autorizou a liquidação após ser informado de que o termo ainda aguardava assinatura.
A PF concluiu que a repetição de pagamentos antecipados, fracionamento de compras, concentração dos negócios e continuidade das operações após alertas era compatível com “gestão fraudulenta”, e não apenas com gestão temerária.


