SÃO PAULO — Empresas de setores tradicionais ainda encontram dificuldades para incorporar os riscos das mudanças climáticas às decisões de investimento e à avaliação de ativos, afirma a Climate Ventures. A organização atua no direcionamento de capital para iniciativas sustentáveis.
Segundo Maria Eugênia Buosi, diretora de projetos da entidade, um dos problemas está no uso de séries históricas de dados climáticos que podem não acompanhar a velocidade das mudanças observadas nos últimos anos. Alterações nos padrões de chuva e temperatura podem ser diluídas quando a análise considera períodos longos, de décadas.
A economista defende que a avaliação de risco combine informações históricas com tendências sobre o comportamento futuro do clima. “Ainda vemos uma dificuldade das empresas de colocar isso dentro dos cálculos de risco e de valoração dos ativos, mas precisa entrar cada vez mais, principalmente em novos projetos”, afirma.
A exposição é mais evidente em setores como agronegócio, energia e infraestrutura, mas também alcança indústrias e empresas de serviços. A ocorrência do El Niño, associada ao aquecimento das águas do oceano Pacífico, pode agravar os impactos.
Dados e pressão de investidores
A cobrança de investidores e financiadores por informações sobre a exposição das empresas ao clima pode estimular mudanças. A divulgação, porém, não é obrigatória, depois que a Comissão de Valores Mobiliários retirou em maio a exigência de publicação de relatórios de sustentabilidade.
Para Buosi, a resistência também está ligada à dificuldade de aceitar a permanência de eventos extremos e à falta de dados detalhados, organizados e confiáveis. A Climate Ventures afirma desenvolver projetos para ampliar e estruturar essas informações.
A organização classifica os impactos climáticos como riscos que podem atingir diretamente os resultados. Eles podem elevar o custo operacional e reduzir a receita das empresas.
Negócios criados sob uma lógica sustentável enfrentam outro obstáculo: a dificuldade de bancos e seguradoras para avaliar riscos quando há pouco histórico disponível. Daniel Contrucci, cofundador e diretor de informação da Climate Ventures, afirma que essas empresas frequentemente não conseguem cumprir as exigências das instituições financeiras, que podem pedir seguros ou garantias elevados.
Garantias e adaptação
Por meio da iniciativa Nature Investment Lab, a Climate Ventures desenvolve mecanismos de garantia para reduzir a percepção de risco e ampliar o acesso a recursos do Fundo Clima. Uma das ferramentas está em processo de regulamentação e tem expectativa de destravar cerca de R$ 10 bilhões. O desenho contou com a colaboração de especialistas e do BNDES.
Entre os negócios apoiados estão a Inocas, que revisou a janela de plantio da palmeira macaúba e adotou mudas mais resistentes, e a Caaporã, que ampliou a produção de forrageiras na estação chuvosa e passou a estocar milho e sorgo para períodos de seca.



