A possibilidade de interferência do governo Donald Trump nas eleições brasileiras passou a ocupar o centro do debate político, em meio a tarifas contra o Brasil, sanções a autoridades e articulações de aliados de Flávio Bolsonaro nos Estados Unidos. Ainda não há diagnóstico preciso sobre até onde Washington poderia avançar, mas instituições da sociedade civil e pessoas próximas ao presidente Lula monitoram o risco desde o último ano.
O tema ganhou força após o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes afirmar que um relatório apresentado por André Mendonça seria uma “farsa” produzida “com auxílio de órgão externo, provavelmente estrangeiro”. A declaração ocorreu no contexto da divulgação de mensagens suspeitas envolvendo o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Master.
Pressão americana e atuação bolsonarista
Em outubro do ano passado, durante negociações após o primeiro tarifaço de 50% contra o Brasil, o governo Trump teria exigido a participação de “dissidentes políticos” nas eleições presidenciais de 2026. O ex-deputado Eduardo Bolsonaro, que está nos Estados Unidos, trabalha pela adoção de sanções contra autoridades brasileiras e afirmou ter relatado a integrantes do governo americano uma suposta tentativa de contestar uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro.
Na última terça-feira (15), um relatório enviado pelo governo Trump ao Congresso americano afirmou que o Brasil “falhou em confrontar” o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho. Os dois grupos foram classificados pelos Estados Unidos como organizações terroristas em maio, apesar da contrariedade do governo Lula.
O senador Flávio Bolsonaro disse ter pedido ao presidente americano essa classificação e utilizou o episódio politicamente. Em um comício realizado no 7 de Setembro, na avenida Paulista, apoiadores exibiram um boneco inflável de Trump segurando uma representação de Lula com roupa de presidiário. Nas redes sociais, páginas bolsonaristas também divulgaram vídeos feitos com inteligência artificial que simulavam a prisão de Lula por Trump.
Relatório da Agência Brasileira de Inteligência sobre “ameaças ao processo eleitoral de 2026” classificou a possibilidade de influência e interferência externa dos Estados Unidos como de “nível de criticidade”. Também houve planos, atribuídos ao governo americano, de enviar ao Brasil funcionários que lançariam dúvidas sobre a integridade das urnas. O Itamaraty não aprovou os vistos, e os Estados Unidos negaram que a missão tivesse objetivo eleitoral.
Atuação regional
A política de Trump inclui manifestações de apoio a candidatos, ameaças econômicas e pressão diplomática em países como Argentina, Canadá, Polônia, Hungria, Japão e Colômbia. Na Argentina, o governo americano fechou um acordo de swap cambial de até US$ 20 bilhões (R$ 102 bi) antes das eleições legislativas do ano passado. Trump também recebeu Javier Milei na Casa Branca e declarou: “Se ele vencer, vamos ficar com ele. Se não vencer, vamos embora”.
Na Bolívia, a prisão do consultor político argentino Fernando Cerimedo abriu investigações sobre uma possível operação transnacional em favor de candidatos da direita radical. Uma batida em um endereço associado a ele, nos arredores de La Paz, encontrou uma estrutura de robôs e mais de US$ 40 mil (R$ 206 mil) em espécie. Cerimedo é amigo de Eduardo Bolsonaro e foi citado em investigação sobre a disseminação de informações falsas a respeito das urnas brasileiras.
Ele também é parceiro de negócios de Brad Parscale, que coordenou a campanha de Trump em 2020. Os dois teriam atuado nas candidaturas de Rodrigo Paz, na Bolívia, e Nasry “Tito” Asfura, em Honduras. Cerimedo afirmou ter recebido cerca de US$ 1 milhão (R$ 5 milhões de reais) por mês nos últimos dois anos com atividades de consultoria política fora da Bolívia.
Apoio de Trump pode ter efeito incerto
A influência americana produziu resultados diferentes. Na Hungria, o apoio a Viktor Orbán não teria sido suficiente para impedir a vitória de Péter Magyar. No Canadá, ameaças econômicas e territoriais de Trump podem ter contribuído para a permanência dos progressistas no poder. Na Colômbia, analistas divergem sobre o peso do apoio de Trump a Abelardo de la Espriella.
No Brasil, o efeito de uma manifestação mais explícita a favor de Flávio Bolsonaro também é incerto. Guilherme Casarões, professor da Florida International University e coordenador do Observatório da Extrema Direita, afirmou que o apoio americano poderia dar ao senador uma aparência de chefe de Estado, mas avaliou que ele não parece benéfico para sua candidatura.
Levantamento divulgado em junho pelo Pew Research Center mostrou que 64% dos brasileiros não confiavam que Trump faria a coisa certa em assuntos globais, enquanto 30% acreditavam. Pesquisa Datafolha divulgada em agosto apontou que metade dos brasileiros via possibilidade de interferência estrangeira nas eleições: 32% consideravam isso um problema e 18% avaliavam o contrário.
Outro levantamento, de julho, indicou que metade do eleitorado entendia que o tarifaço imposto por Trump tinha como objetivo ajudar a campanha de Flávio. Após o primeiro tarifaço, em julho de 2025, pesquisas apontaram melhora na popularidade de Lula. A taxação mais recente dos Estados Unidos, em julho deste ano, porém, não apareceu associada a um fortalecimento do presidente nos levantamentos eleitorais.


