MAHARASHTRA — Ramabai Ranveer, viúva de 47 anos, venceu em agosto uma corrida de 3 quilômetros na Índia mesmo sem experiência e sem conseguir manter os tênis nos pés. Ela terminou a prova descalça e destinou o prêmio de R$ 160 à compra de livros e material escolar para as filhas.
A participação foi motivada pelos custos da educação superior. Ramabai soube da competição por meio da filha mais velha, Pooja, 22, que também participou da corrida e ficou em segundo lugar em sua categoria, levando R$ 102.
Corrida para pagar os estudos
Ramabai contou que decidiu competir depois que a filha mais nova, Arati, que vive em outra cidade, ficou oito dias sem telefonar por não ter dinheiro para comprar livros. Durante a prova, quando os tênis começaram a escorregar, ela os tirou, ajeitou o sari e continuou correndo. A vitória veio na faixa etária de 30 a 60 anos.
“Meu único desejo era ganhar esse prêmio”, disse Ramabai. Ela afirmou estar muito feliz por poder usar o dinheiro na educação das filhas.
Desde 2012, após a morte do marido, Ramabai sustenta a casa. Ela trabalhou na colheita de soja, grão-de-bico e cúrcuma, além de cozinhar e vender alimentos. A mãe abandonou a escola aos 13 anos e diz que quer garantir às filhas uma formação melhor.
Pooja se prepara para o recrutamento policial na academia onde Ramabai trabalha como cozinheira. Arati estuda Ciência da Computação e se prepara para os exames do serviço público. As duas também tentam passar em exames de ingresso para empregos no Estado.
Educação e emprego
Os empregos públicos são apresentados no país como uma das principais portas de entrada para a classe média, além de oferecerem segurança, pensão e subsídios para moradia. Milhões de estudantes gastam anos e dinheiro na preparação para essas provas.
As dificuldades enfrentadas por Ramabai ganharam repercussão em meio a protestos relacionados à educação e a reivindicações econômicas. Um relatório do governo informou que apenas 8% dos graduados universitários conseguem empregos em que usam os conhecimentos adquiridos nos cursos. A taxa de desemprego entre graduados é de 29,1%, nove vezes maior que a registrada entre pessoas que nunca frequentaram a universidade.
Em maio, o Exame Nacional de Elegibilidade e Admissão para estudos de graduação em medicina foi cancelado após um vazamento. Quase 2 milhões de estudantes tiveram de refazer a prova. Protestos liderados pela Geração Z culminaram na renúncia do ministro da Educação em julho passado.
O movimento também cobra a modernização das escolas públicas, com atenção à infraestrutura e às desigualdades nas áreas rurais. Abhijeet Dipke, fundador do Partido Popular da Barata (CJP), disse que as crianças dessas regiões deveriam receber uma educação digna. Em uma escola perto do distrito de Ramabai, não havia banheiros para as alunas, e pacotes de comida vencidos eram usados no preparo do almoço.
Ajuda determinada pela Suprema Corte
A vitória de Ramabai chamou a atenção das autoridades. No início deste mês, o presidente da Suprema Corte da Índia, Surya Kant, ordenou que o distrito concedesse a ela uma ajuda financeira de R$ 2,5 mil.
Sukhadeo Thorat, que presidiu a Comissão de Subsídios Universitários, afirmou que a situação da família expõe falhas na execução dos programas educacionais do governo. Para ele, o esforço de Ramabai mostra que essas políticas não estão sendo implementadas de forma adequada.
Nas redes sociais, a conquista foi interpretada tanto como símbolo do sacrifício de uma mãe quanto como sinal das dificuldades do sistema educacional indiano. Shoma Sarkar questionou: “É um momento de glória ou de vergonha para nós como sociedade?”
Ramabai diz que deseja apenas que as filhas tenham uma vida feliz e não enfrentem as dificuldades pelas quais ela passou, como trabalhar na lama e viajar sob o sol e a chuva.



