Mulheres são maioria entre os eleitores, mas aparecem em proporção maior entre os indecisos para a eleição presidencial de 2026. Segundo o Datafolha, 29% delas ainda não escolheram candidato, ante 16% dos homens. O eleitorado feminino representa quase 53% do total, o equivalente a 9 milhões a mais que o masculino.
A diretora do instituto, Luciana Chong, afirma que as mulheres costumam levar mais tempo para definir o voto por serem mais cuidadosas, atarefadas e demorarem mais a se envolver na discussão eleitoral. O levantamento de julho também mostrou que elas são menos influenciadas por amigos, filhos, líderes religiosos e cônjuges.
Trabalho, cuidados e novas opções
A empresária mineira Liliane Ávila, 43, vive em Belo Horizonte, comanda uma empresa de uniformes e fantasias, cuida da mãe idosa e é mãe de dois filhos. Em processo de separação após 25 anos de casamento, ela ainda não decidiu em quem votar para presidente.
Entre os empresários com quem convive, o apoio a Flávio Bolsonaro (PL) é predominante. Dentro de casa, os filhos e a nora preferem Lula (PT). Liliane diz buscar uma alternativa aos nomes mais conhecidos e afirma que propostas para mulheres que trabalham poderão definir sua escolha. Entre as prioridades, cita creches, combate à violência obstétrica e incentivo à empreendedora.
A divisão das tarefas domésticas, dos cuidados, das oportunidades de negócios e da participação social e política está entre as mudanças que ela considera necessárias. Para Liliane, a ideia de que mulheres são excepcionais por darem conta de muitas responsabilidades desvia a atenção da desigualdade na distribuição dessas tarefas.
No Recife, Bianca Gomes do Prado, 30, cria sozinha o filho de 9 anos na ocupação do Bode. Ela recebe R$ 650 mensais pelo Bolsa Família e complementa a renda com trabalhos temporários. Seu desejo é que o filho tenha uma boa escola e possa brincar com segurança, sem racismo.
Bianca votará em Lula, que considera mais sensível às pessoas pobres. Flávio Bolsonaro não é uma opção, principalmente pela associação com Jair Bolsonaro. Para ela, a política ainda cobra das mulheres uma comprovação constante de competência em diferentes áreas, enquanto os homens precisam apenas ser ouvidos.
Entre as eleitoras, a rejeição a Flávio chega a 50%, contra 43% de Lula, de acordo com o Datafolha. Na pesquisa de setembro, Lula tinha vantagem de 9 pontos sobre Flávio entre as mulheres. Entre os homens, Flávio aparecia 2 pontos à frente.
Para a professora Flavia Biroli, da UnB, a maior rejeição feminina à direita e à extrema direita está ligada, entre outros fatores, à percepção mais forte sobre a importância do Estado em áreas como educação e saúde.
Direita, educação e representação
A gaúcha Marlise Rosler, 53, declara voto em Flávio Bolsonaro, embora faça críticas ao candidato. Casada, católica e mãe de dois filhos, ela sustenta a casa com o salário de assessora política em Guaíba, na região metropolitana de Porto Alegre.
Marlise participa da política desde o grêmio estudantil, já foi de esquerda e se candidatou a vereadora. Ela atribui parte da derrota à falta de financiamento adequado. Hoje, defende a liberdade econômica, critica o assistencialismo e se opõe ao que considera doutrinação política de esquerda nas escolas.
Parte de suas posições, diz, foi influenciada pelo Alicerça Brasil, projeto liderado por Michelle Bolsonaro para aproximar mulheres de direita da política. Marlise também afirma buscar maior presença feminina nos espaços de decisão e cita como referência a prefeita de Guaíba, Claudinha Jardim (PL).
A participação feminina no poder ainda é restrita. Na Câmara federal, as mulheres representam 17,8% das cadeiras. No Mapa Mulheres na Política de 2025, elaborado pela União Interparlamentar e pela ONU Mulheres, o Brasil aparece na 133ª posição entre 183 países.
A educadora goiana Ana Flavia dos Santos, 39, diz rejeitar os extremos e não gostar de ter apenas duas opções. Mãe de dois adolescentes, evangélica e responsável também pelos cuidados com a avó, ela vive em Itumbiara (GO).
Formada em química, Ana Flavia trabalha na educação e comanda a coordenadoria estadual de ensino da região, que reúne cerca de mil servidores e milhares de alunos. Ela votará em Ronaldo Caiado (PSD), por considerar que o candidato valorizou as mulheres e colocou a educação em primeiro lugar. Também demonstra simpatia pela visão de Augusto Cury (Avante).
Seu projeto de país envolve mais tempo com a família, educação de qualidade e convivência. A imagem que associa a esse futuro é a de uma grande mesa, com familiares reunidos, em um jardim.
Direito ao voto e participação política
O direito feminino ao voto foi conquistado em 1932, ainda com restrições, após mobilização de mulheres. Atualmente, vozes defendem que a escolha eleitoral seja feita pela família, e não individualmente. As 15 entrevistadas rejeitaram essa ideia, independentemente de suas posições políticas.
Para a historiadora Heloisa Starling, mulheres progressistas e conservadoras participam da política brasileira desde o século 19. Ela considera a reivindicação de direitos um elemento central da democracia e afirma que as mulheres representam uma ameaça em ambientes misóginos por sua trajetória política e pela discriminação que enfrentam.
O país imaginado pelas entrevistadas combina demandas práticas e aspirações pessoais: divisão mais justa do trabalho, proteção contra a violência, oportunidades econômicas, educação, segurança para as crianças e maior presença feminina no poder.



