A divulgação de documentos do caso Banco Master ampliou o conflito entre ministros do Supremo Tribunal Federal. André Mendonça tornou públicos 15 inquéritos na noite de quinta-feira (10), após uma determinação do presidente da corte, Edson Fachin, mas manteve parte do material sob sigilo para não prejudicar as próximas etapas da investigação.
Na sexta-feira (11), Fachin estabeleceu prazo de 24 horas para que Mendonça divulgasse o restante dos documentos, após solicitação da Procuradoria-Geral da República. No início da noite, o ministro liberou 38 procedimentos relacionados às suspeitas de fraude atribuídas ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro e a seus desdobramentos. Ainda não se sabe quantos inquéritos existem no total.
Entre os documentos estão os que tratam do filme “Dark Horse”, sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. O material confirma que Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência, é investigado. A Polícia Federal afirma que ele foi interlocutor direto de Vorcaro e fez cobranças para que o ex-banqueiro financiasse a produção.
A PF apura possível lavagem de dinheiro, evasão de divisas, corrupção e outros delitos relacionados. Os investigadores também analisam a negociação de pelo menos US$ 24 milhões para o filme. Desse valor, ao menos US$ 12,3 milhões teriam sido pagos. Os montantes correspondem, respectivamente, a aproximadamente R$ 122,7 milhões e cerca de R$ 62,9 milhões.
Flávio defendeu a divulgação completa dos documentos. “Para mim, a melhor coisa que pode acontecer é a transparência total sobre esse assunto”, afirmou. Segundo a investigação, parte dos recursos pode ter sido usada para custear a permanência de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. A PF diz ainda que ele teria orientado como o dinheiro poderia ser administrado no país.
Disputa entre ministros
A decisão de divulgar os documentos gerou críticas de outros integrantes do STF. Alexandre de Moraes acusou Mendonça de escolher de forma seletiva o que seria tornado público e afirmou que ao menos 180 documentos continuavam sob confidencialidade. Moraes também pediu uma investigação contra o colega.
A tensão envolve ainda o próprio Moraes. Mensagens do celular de Vorcaro indicaram que os dois mantiveram contato até a prisão do ex-banqueiro. Vorcaro teria questionado o ministro sobre o andamento da investigação e sobre a possibilidade de deixar o país. O relatório foi produzido pela Polícia Federal a pedido de Mendonça e divulgado anteriormente.
Entre os documentos liberados está o contrato entre Vorcaro e Viviane Barci de Moraes, esposa de Alexandre de Moraes. Cristiano Zanin pediu acesso ao conteúdo bruto do celular do ex-banqueiro, mas teve a solicitação rejeitada por Mendonça e depois reiterou o pedido.
O plenário do Supremo tem sessão marcada para terça-feira (15), quando deve analisar as conversas entre Moraes e Vorcaro. Há pressão para ampliar a pauta. Gilmar Mendes pediu que Fachin também assuma a investigação contra Mendonça e sugeriu o adiamento do julgamento.
Outros pontos da investigação
Os documentos indicam que Vorcaro teria financiado viagens e jantares internacionais para dois servidores do Banco Central. Belline Santana, ex-chefe de Supervisão Bancária, viajou com a esposa para Paris com parte dos custos pagos pelo ex-banqueiro. A defesa de Belline não respondeu e, em outras ocasiões, negou influência de Vorcaro sobre sua atuação.
A PF também afirma que Vorcaro pagou uma viagem de Paulo Sérgio Neves de Souza, ex-diretor de fiscalização do Banco Central, para a Disney, nos Estados Unidos. O ex-banqueiro teria pedido que ele tentasse impedir mudanças em regras sobre investimentos de fundos de previdência que poderiam afetar o Master.
A defesa de Paulo Sérgio disse que ele pagou integralmente as despesas da viagem com a família. Também afirmou que a PF interpretou de forma incorreta seu trabalho de supervisão, tratando-o como um serviço de consultoria informal.
Vorcaro foi preso na noite de 17 de novembro de 2025, quando se preparava para embarcar em um jato particular com destino a Malta. Para a Polícia Federal, mensagens, anotações e movimentações encontradas no celular dele indicam que informações sigilosas sobre a investigação chegaram ao ex-banqueiro nas semanas anteriores à operação.



