Flávia Moraes, de 56 anos, dirige a operação brasileira da Professional Bull Riders (PBR) desde 2021 com uma meta definida: transformar a montaria em touros no segundo esporte mais assistido do país. Para ela, o principal obstáculo está no reconhecimento dos competidores fora das arenas.
A executiva entrou no universo do rodeio em 1989, quando conheceu Adriano Moraes, que se tornaria tricampeão mundial da modalidade. Durante quase quatro décadas, cuidou da carreira dele, negociou patrocínios, acompanhou contratos e manteve a interlocução com a PBR, liga americana responsável pela organização da elite do esporte.
A experiência nos bastidores é apresentada por Flávia como a base de sua gestão. “Esses competidores são os heróis anônimos do Brasil”, afirma. Ela diz que a valorização dos atletas envolve não apenas os prêmios, mas também hospedagem e a forma como os profissionais são apresentados pela mídia.
A PBR Brasil completará 20 anos no país em 2026. A temporada 2025/2026 terminou na Festa do Peão de Barretos, que chegou ao fim no último domingo (30).
Premiação e concentração no topo
A final nacional em Barretos teve cerca de R$ 750 mil em prêmios, conforme a liga. Desse total, R$ 450 mil foram pagos em dinheiro, enquanto uma picape avaliada em R$ 300 mil foi entregue ao campeão da temporada. João Paulo Velasco venceu o campeonato e encerrou o ano com R$ 890,8 mil, considerando etapas, bônus e o valor do veículo.
A maior parte dos recursos ficou concentrada entre os primeiros colocados. Os dez melhores do ranking dividiram R$ 2,014 milhões, aproximadamente 57% do total distribuído pela liga na temporada. Velasco recebeu sozinho um quarto desse montante. Os outros nove competidores do grupo ganharam, em média, R$ 124,8 mil cada.
Para Flávia, o rodeio brasileiro teve seu auge na década de 1990, quando as premiações nacionais superavam as dos Estados Unidos. Depois, segundo ela, o setor passou por um período de retração. A executiva relaciona parte dessa queda à permanência de Adriano nos Estados Unidos, onde competia e atuava como representante dos atletas.
Ela afirma que a retomada ocorreu mais recentemente, no período posterior à pandemia, com aumento das premiações e mudanças no tratamento oferecido aos competidores. Na avaliação dela, a PBR foi o principal agente desse movimento.
Expansão e profissionalização
A temporada encerrada em Barretos teve 34 etapas realizadas em seis estados: São Paulo, Paraná, Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. A liga informou ter distribuído mais de R$ 3,5 milhões em prêmios.
Entre os sinais de profissionalização citados por Flávia está o uso de tecnologia durante as competições. Os juízes registram as notas em tablets, e os dados inseridos em Barretos são enviados ao servidor internacional da PBR.
A liga também informou que 12 etapas foram transmitidas ao vivo por um canal esportivo de TV por assinatura entre março e agosto. A programação somou mais de 100 horas de conteúdo ao vivo, além de reprises e de um programa semanal.
A matriz americana transferiu a administração integral da operação brasileira para a empresa no país em outubro de 2021, segundo a PBR Brasil. Os primeiros eventos sob o novo modelo ocorreram em dezembro daquele ano, já valendo para o calendário da temporada de 2022. Foi nesse momento que Flávia assumiu a diretoria-executiva. Adriano continua como presidente.
Antes da mudança, o Brasil era a única franquia da liga fora dos Estados Unidos cuja gestão ainda contava com participação ativa da matriz. Austrália e Canadá já operavam de forma independente. A operação brasileira continua seguindo as regras da PBR Inc. e respondendo diretamente à empresa em diferentes assuntos.
Segundo a PBR Brasil, o campeonato nacional é o mais forte da liga fora dos Estados Unidos em número de eventos, público, premiação e formação de atletas. “Não somente eu. Nós trouxemos toda a nossa família para essa missão”, diz Flávia.
Participação feminina
Flávia afirma que não há mulheres competindo na montaria em touros no Brasil. A participação feminina no rodeio se concentra em provas com cavalos, como os três tambores.
Na Final Nacional em Barretos, a liga contratou diretamente cerca de 50 pessoas para atividades de produção, direção, mídia, competição e outras funções. Cinco eram mulheres: quatro trabalhavam no evento e uma no escritório.
A estrutura de uma etapa envolve ainda 25 competidores, cerca de 50 pessoas ligadas às 13 boiadas presentes e outras 15 a 20 contratadas por empresas terceirizadas, como a produtora de televisão e a equipe do show pirotécnico. Ao todo, são cerca de 140 pessoas mobilizadas para uma noite de montarias.
A PBR Brasil não informou quantas pessoas trabalham na operação ao longo do ano, porque parte dos contratos é feita de forma pontual, conforme cada evento.
Flávia diz que não enfrentou resistência quando circulava nos bastidores como mulher de um competidor nem depois de assumir o cargo executivo. Em 2013, recebeu da PBR o Sharon Shoulders Award, criado em 2010 para reconhecer mulheres consideradas essenciais ao esporte. O prêmio homenageia Sharon Shoulders, mulher do peão americano Jim Shoulders.



