SÃO PAULO — Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência da República, ficou durante alguns dias da primeira quinzena de agosto em um apartamento na Vila Nova Conceição, em São Paulo. O imóvel havia pertencido a Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro, e atualmente está registrado em nome de uma empresa do advogado Willer Tomaz, amigo do candidato.
Moradores do edifício l’Adresse confirmaram a presença de Flávio no local. Durante a estadia, ele se reuniu com integrantes da campanha, gravou vídeos para o horário eleitoral, participou de podcasts e teve compromissos na região da Faria Lima. O comitê de campanha ficava a poucos minutos do apartamento.
Agentes à paisana fizeram varreduras nas áreas comuns do prédio durante a permanência do candidato, segundo relatos obtidos na apuração. Uma funcionária de uma escola onde eram estacionados veículos usados pela Polícia Legislativa também confirmou a movimentação.
Compra e venda do apartamento
Fabiano Zettel comprou o apartamento em abril de 2025 por R$ 5,5 milhões. Menos de dez meses depois, em fevereiro de 2026, vendeu o imóvel por R$ 3,5 milhões à WT Administração de Imóveis e Bens, empresa de Willer Tomaz. A diferença nominal entre os valores foi de R$ 2 milhões.
A transferência foi registrada em cartório em 4 de março, na mesma data em que Zettel foi preso durante a terceira fase da Operação Compliance Zero e depois de o Supremo Tribunal Federal ter determinado o bloqueio dos bens dele.
Willer Tomaz inicialmente negou por telefone que Flávio tivesse usado o apartamento. Depois, em nota, afirmou que não conhece Zettel nem Vorcaro e que jamais manteve “relação pessoal, comercial ou societária” com os dois. A manifestação não tratou especificamente da presença de Flávio no imóvel.
A assessoria de Flávio afirmou que o candidato se hospedou apenas em hotéis da região.
Relação entre Flávio e Willer Tomaz
A hospedagem ocorreu em meio a outros episódios envolvendo a relação entre o senador e o advogado. Em 29 de agosto, durante uma agenda de campanha em Angra dos Reis, Flávio defendeu mudanças nos planos diretores dos municípios da Costa Verde e medidas para acelerar empreendimentos imobiliários e turísticos. Ele citou condomínios e resorts e propôs a retirada de entraves ambientais para agilizar essas obras.
Empresas ligadas a Willer possuem três propriedades em Angra dos Reis: duas na Ilha Comprida e uma na Ilha do José André. Em 2025, o advogado procurou o Instituto Estadual do Ambiente para consultar qual percentual de um terreno poderia ser destinado a uma operação turística.
Não há documento público que comprove que a proposta de Flávio tenha sido formulada para beneficiar os negócios de Willer. O advogado afirmou que não participou da elaboração da política de turismo, não foi consultado e nunca tratou do assunto com o candidato.
Willer também confirmou ter cedido gratuitamente à família de Flávio uma mansão em Angra dos Reis para o aniversário da filha caçula do senador. Segundo o advogado, não houve pagamento, contraprestação ou relação comercial, e o empréstimo ocorreu por causa da amizade entre os dois. A casa tem sete suítes, piscina aquecida, sauna, academia, heliponto e píer.
Documentos do terminal executivo do Aeroporto de Brasília registraram ao menos dois deslocamentos da família de Flávio em jatinhos privados durante 2025. Em 1º de abril, uma aeronave pertencente a uma empresa ligada a Willer deixou Brasília com destino ao Rio de Janeiro depois que Flávio, a mulher e as duas filhas entraram no terminal. Em outra viagem, Flávio e a mulher foram para a Flórida acompanhados de Willer e da esposa dele.
Em 2022, nos últimos meses do governo Jair Bolsonaro, Flávio tentou indicar Willer para uma vaga no Conselho Nacional de Justiça. A articulação não avançou.
A transferência dos direitos de ocupação de uma propriedade na Ilha Comprida também passou pela Secretaria do Patrimônio da União quando a superintendência do órgão no Rio era comandada pelo coronel Paulo Medeiros, indicado por Flávio. A SPU informou posteriormente que o processo foi protocolado em 11 de maio de 2022 e concluído em 12 de julho de 2022, após cerca de dois meses, sem identificação de irregularidades.
Não há prova pública de que Flávio tenha determinado a aceleração do processo ou interferido diretamente na autorização. Também não há comprovação de acordo de contrapartida entre o candidato e o advogado.



