Uma nova geração de medicamentos para obesidade combina diferentes mecanismos de ação e busca ampliar a perda de peso, reduzir efeitos colaterais e oferecer alternativas às canetas injetáveis. CagriSema, survodutida e retatrutida estão na fase 3 de testes clínicos, a etapa final antes de pedidos de aprovação a órgãos como a FDA, dos Estados Unidos, e a Anvisa.
O orforglipron é a exceção entre as moléculas mais recentes. De uso oral diário, o medicamento foi aprovado pela FDA em 1º de abril deste ano e é vendido nos Estados Unidos sob o nome Foundayo. Ainda não há data de aprovação pela Anvisa, e a expectativa é que o produto chegue ao mercado brasileiro no segundo semestre de 2027.
Orforglipron é alternativa em comprimido
Fabricado pela Eli Lilly, o orforglipron é um agonista do receptor de GLP-1, hormônio relacionado ao controle do apetite, da saciedade e da liberação de insulina. Pode ser tomado a qualquer hora do dia, sem restrições de alimentação. A molécula foi descoberta pela farmacêutica japonesa Chugai e licenciada pela Lilly em 2018.
No estudo ATTAIN-1, foram avaliadas mais de 4.500 pessoas com obesidade ou sobrepeso associado a um problema de saúde relacionado ao peso, sem diabetes. Na semana 72, as doses de 6 mg, 12 mg e 36 mg reduziram mais o peso corporal do que o placebo. Na dose mais alta, a perda média foi de 12,4%, equivalente a 27,3 libras ou cerca de 12,4 kg. Quase 40% dos participantes perderam ao menos 15% do peso.
Entre os participantes que tinham pré-diabetes no início da pesquisa, até 91% normalizaram os níveis de açúcar no sangue, ante 42% no grupo placebo. O tratamento também reduziu colesterol não-HDL, pressão arterial sistólica e triglicerídeos. Os efeitos colaterais mais frequentes foram náusea, constipação, diarreia e vômitos, principalmente nas doses mais altas. O preço informado nos Estados Unidos é de US$ 149 (R$ 755) por mês na menor dose.
Retatrutida combina três receptores
A retatrutida, da Eli Lilly, ativa simultaneamente os receptores de GLP-1, GIP e glucagon. Nos estudos TRIUMPH-3 e TRIUMPH-2, os resultados incluíram reduções de peso e melhora no controle glicêmico.
O TRIUMPH-3 acompanhou 1.949 adultos com obesidade grave e doença cardiovascular estabelecida, com ou sem diabetes tipo 2. Depois de um ano e oito meses, a perda média foi de 23,9 kg, ou 21,6% do peso corporal, na dose de 9 mg, e de 25,3 kg, ou 22,6%, na dose de 12 mg. No grupo placebo, a redução foi de 3,5 kg, equivalente a 3,2%.
O estudo também registrou queda de triglicerídeos, colesterol ruim, pressão arterial, circunferência abdominal e proteína C-reativa. No TRIUMPH-2, que envolveu 1.152 adultos com obesidade ou sobrepeso e diabetes tipo 2, as perdas foram de 12,7% com 4 mg, 19,1% com 9 mg e 20,8% com 12 mg.
Diarreia, náusea, constipação, redução do apetite e vômitos foram os efeitos colaterais mais comuns. Também foram relatados episódios de disestesia e infecções urinárias. A retatrutida ainda não foi aprovada em nenhum país, mas já circula ilegalmente no Brasil em canetas contrabandeadas do Paraguai, com apreensões na fronteira em Foz do Iguaçu. A Lilly planeja apresentar o pedido de aprovação à FDA no primeiro trimestre de 2027.
CagriSema testa combinação de semaglutida e cagrilintida
O CagriSema, da Novo Nordisk, combina a semaglutida, que atua no receptor de GLP-1, e a cagrilintida, que age sobre a amilina. No estudo REIMAGINE 5, com pacientes com diabetes tipo 2, a dose de 1,0 mg/1,0 mg produziu perda média de 12,4% na semana 60, ou 15 meses. A tirzepatida 5 mg foi usada como comparação e levou a uma redução de 9,1%.
No REDEFINE 9, com adultos com sobrepeso ou obesidade, a perda chegou a 21% na semana 68, ou 17 meses, contra 2% no grupo placebo. Também foram relatadas melhorias na pressão arterial sistólica, na relação cintura-altura e no perfil lipídico. A Novo Nordisk afirmou que o medicamento foi "de modo geral, bem tolerado".
A empresa pediu o registro do CagriSema à FDA em dezembro de 2025 para controle de peso e aguarda uma decisão regulatória nos próximos meses deste ano. A molécula continua sendo investigada.
Survodutida apresenta resultados para peso e fígado
A survodutida, da Boehringer Ingelheim, é um agonista duplo dos hormônios glucagon e GLP-1. No estudo SYNCHRONIZE-1, adultos com obesidade ou sobrepeso sem diabetes tipo 2 foram acompanhados por 76 semanas. A perda média de peso foi de 16,6%, ante 3,2% no placebo. Houve ainda redução de 34% da gordura visceral e de 63,1% da gordura hepática.
No SYNCHRONIZE-MASLD, pacientes com sobrepeso ou obesidade e doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica foram acompanhados por 48 semanas. Cerca de 84,2% dos tratados reduziram a gordura hepática em pelo menos 30%, contra 24,3% no placebo. A perda de peso chegou a 12,2%, e praticamente 6 em cada 10 pacientes normalizaram a gordura no fígado até a semana 48.
Os eventos adversos mais comuns foram náusea, vômito, diarreia e constipação, geralmente leves ou moderados e concentrados na fase de aumento gradual da dose. A survodutida não tem aprovação regulatória em nenhum país. Estudos de fase 3b estão em andamento, incluindo pesquisas para a saúde da mulher e para formas mais avançadas de doença hepática.
Os medicamentos que deram origem a essa nova disputa são a semaglutida, presente no Ozempic e no Wegovy, e a tirzepatida, do Mounjaro. Esses remédios popularizaram os agonistas do receptor de GLP-1, classe desenvolvida inicialmente para tratar diabetes tipo 2.



