SÃO PAULO — Promotores do Ministério Público de São Paulo denunciaram 19 suspeitos por lavagem de dinheiro e organização criminosa. Segundo o Gaeco, operadores financeiros, entre eles condenados na Operação Lava Jato, montaram uma rede clandestina usada por integrantes e colaboradores do PCC para ocultar valores provenientes do tráfico de drogas e de outros crimes.
A denúncia foi apresentada na segunda-feira (14), após as operações Janus e Bazaar. A Justiça ainda deve decidir se abrirá uma ação penal e não há prazo para essa análise. Os promotores também investigaram movimentações ilícitas, a participação de criminosos nos chamados tribunais do crime na cidade de São Paulo e um suposto esquema de corrupção na Polícia Civil paulista.
O Gaeco descreve a estrutura como uma central de serviços financeiros ilícitos, chamada na denúncia de “Banco do Crime”. A rede teria usado empresas fictícias e contas de laranjas sem capacidade econômica compatível com os valores movimentados. Os operadores também teriam explorado brechas de fiscalização e regulação, além de corromper gerentes bancários e agentes públicos.
Relação com integrantes do PCC
A investigação aponta que Leonardo Monteiro Moja, conhecido como Léo do Moinho, e Alexandre Salles Brito, o Buiú, teriam recorrido aos serviços. Também aparecem entre os clientes suspeitos colaboradores da facção, incluindo um investigado por contribuir para o tráfico internacional de cocaína e um operador de criptomoedas.
Mensagens interceptadas indicariam que contas bancárias foram fornecidas por Léo a um prestador do serviço de lavagem. Depósitos de dezenas de milhares de reais teriam sido feitos para esconder a ligação do dinheiro com o tráfico comandado por ele.
Entre os denunciados estão Leonardo Meirelles, Meire Bonfim Poza e Raphael Flores Rodrigues. A Meirelles é atribuído um papel central na estrutura chamada Akron. Ele e seus sócios teriam procurado pessoas associadas ao PCC para oferecer serviços de blindagem tributária e ocultação de movimentações financeiras.
Apontado como doleiro, Meirelles também teria participado de pagamentos de propina a policiais civis. Ele tem mandado de prisão pendente em processo por associação para o tráfico. Em outro caso, foi preso e acusado de emprestar empresas para Alberto Youssef fazer remessas de até R$ 140 milhões ao exterior. Depois, deixou a prisão após confessar os crimes.
Uma mensagem atribuída a Cléber Azevedo dos Santos dizia que “nosso banco digital já está funcionando” e apresentava o serviço como um banco para blindagem tributária que não seria alcançado pelo Coaf e pelo Banco Central. O advogado José Antônio Chiaradia afirmou que as alegações contra Cléber são ilações sem fundamento ou provas.
Conversas com policiais militares
A investigação também encontrou conversas que mencionam os coronéis da Polícia Militar de São Paulo José Augusto Coutinho, ex-comandante-geral, e Luiz Carlos Pereira Martins, oficial da reserva. Martins participava de um grupo de WhatsApp com suspeitos de lavagem de dinheiro, enquanto Coutinho foi citado em conversa sobre um operador que faria troca de TED por dinheiro vivo e teria conexões com integrantes do PCC.
Os promotores encaminharam cópia integral do processo à Justiça Militar para apurar possíveis crimes atribuídos aos coronéis. Eles não foram investigados pelo Gaeco.
O advogado Rodrigo Antunes Benetti, que representa Léo do Moinho, declarou que a inocência de Leonardo será demonstrada. A defesa de Brito, de Meirelles, de Poza e de Pereira Martins não foi identificada. Em julho, a defesa de Coutinho afirmou que ele exerceu suas funções com integridade e correção.
O Gaeco pede ainda que os denunciados paguem indenização de R$ 10 milhões, destinada aos fundos públicos.



