HILLSBOROUGH (CALIFÓRNIA) — Casas coletivas voltadas à indústria de inteligência artificial se tornaram centros de networking no Vale do Silício, mas também aparecem em registros policiais e processos judiciais relacionados a festas, conflitos entre moradores, assédio sexual e acusações de estupro.
Essas residências, conhecidas como hacker houses, são ocupadas principalmente por fundadores de startups e engenheiros da OpenAI e da Anthropic. Em algumas delas, o aluguel mensal de um quarto chega a US$ 10 mil (R$ 51 mil). Há casas com listas de espera de mais de 40 pessoas para cada quarto.
Pelo menos dez casas foram identificadas, além de outras que operam discretamente. Muitas são administradas por executivos de tecnologia que buscam lucrar com espaços de convivência. Sam Altman, presidente-executivo da OpenAI, é consultor da Residency, organização que pretende formar uma rede global de hacker houses para “construtores ambiciosos”.
Ocorrências na AGI House
A mansão de oito quartos conhecida como AGI House, em Hillsborough, registrou 37 ocorrências policiais desde 2022. Pelo menos 17 estavam relacionadas a reclamações sobre grandes festas e eventos.
Entre os demais registros está um episódio em que uma mulher afirmou à polícia que um morador tentou pressioná-la a fazer sexo com ele. Ela disse ter recusado repetidamente e pulou uma cerca para escapar. O registro informa que a mulher não ficou ferida.
A polícia também foi chamada pelo menos quatro vezes para verificações de bem-estar, normalmente realizadas quando há preocupação com a saúde mental de alguém ou com o risco de que a pessoa machuque a si mesma ou terceiros. Neste ano, foram registradas três ocorrências na casa, segundo a polícia de Hillsborough.
A mansão de 1.670 m² recebeu eventos com a participação de Sergey Brin, cofundador do Google, e da cantora Grimes. Em uma festa, um carro voou pelo ar; em outra, chamada “Meia-Noite em Paris”, convidados chegaram em carruagens puxadas por cavalos a uma réplica da Torre Eiffel.
O imóvel é ligado a um fundo de capital de risco e tem o apoio declarado de Eric Schmidt, ex-presidente-executivo do Google, e Marc Andreessen. Um representante de Andreessen afirmou que ele não estava envolvido.
Disputa pela casa e denúncias
A origem da AGI House está ligada a Jeremy Nixon, ex-pesquisador do Google que criou outras casas coletivas de tecnologia. Em 2019, ele cofundou em San Francisco a Genesis, que se apresentava como um espaço para fundadores e empreendedores.
Yehong Zhu, fundadora da startup de IA Zette, registrou uma ocorrência em dezembro de 2021 acusando um ex-morador da Genesis de estupro e agressão sexual. O caso continua sob investigação, e o homem deixou a casa e não foi localizado, segundo Zhu.
A antiga proprietária da Genesis, Mei Chiao, afirmou que Nixon desrespeitou o contrato de aluguel ao permitir a entrada e a saída de muitas pessoas. Segundo ela, o imóvel deixou mais de US$ 60 mil (R$ 307,8 mil) em danos. Em 2023, Chiao processou Nixon e outro administrador por mais de US$ 9.000 (R$ 46 mil) em aluguéis não pagos e recuperou cerca de US$ 5 mil (R$ 25,5 mil), conforme documentos judiciais.
Nixon alugou uma mansão em Hillsborough em 2022 e criou a NeoGenesis com Andrej Karpathy, cofundador da OpenAI. A casa foi rebatizada como AGI House em 2023, quando Yu assumiu a administração. Os dois passaram a disputar judicialmente os direitos sobre a marca e a origem do conceito.
Nixon afirmou que planejava uma casa com 20 hackers de IA, enquanto Yu disse que o ex-administrador não conseguia manter os pagamentos nem lidar com as reclamações da cidade. Karpathy afirmou que pagou uma parte do aluguel durante o primeiro ano e participou de alguns eventos.
Outras festas
Nixon abriu em 2024 a AGI House SF, em San Francisco. A casa registrou pelo menos oito ocorrências policiais em 2023 e 2024 relacionadas a barulho e congestionamento das ruas.
Em outra residência de Hillsborough, administrada por Jimmy Chen, foram registradas mais de 20 reclamações entre o fim de 2021 e 2024, principalmente por barulho e estacionamento. Chen promoveu festas elaboradas, incluindo uma em que mulheres entraram na piscina vestidas de sereias.
A proprietária Lena Chedid afirmou em um registro policial que o imóvel foi destruído depois que Chen saiu. “Uma empresa especializada precisou dedetizar toda a casa, pois ela foi encontrada infestada de roedores”, escreveu. Chen disse que a proprietária sabia que o imóvel era usado para eventos, que havia pago um depósito de garantia e que os ratos já estavam no local quando se mudou.



