MADRI — Maricarmen, de 87 anos, foi despejada na quarta-feira (23) do apartamento onde morava havia sete décadas, depois que a Justiça espanhola decidiu a favor da empresa proprietária do imóvel. A idosa, que tem mobilidade reduzida e 50% de incapacidade, deixou o prédio de cadeira de rodas e foi levada ao hospital para um check-up médico.
O caso ocorreu no bairro do Retiro, em Madri, e mobilizou ativistas, artistas e centenas de pessoas que tentaram impedir a retirada. Depois do atendimento, Maricarmen recusou uma moradia temporária oferecida pela Comunidade de Madri e foi morar com familiares.
A disputa envolvia o contrato de aluguel assinado pelo pai de Maricarmen em 1956. Após a morte dele, a esposa assumiu a locação. Quando ela morreu, em 2005, o contrato passou para a filha. O imóvel tem 92 m² e fica em uma das áreas mais valorizadas da capital espanhola.
Disputa sobre o contrato
Maricarmen pagava 500 euros mensais, valor considerado inferior ao praticado atualmente para imóveis com aquele tamanho e naquela localização. O contrato fazia parte do regime conhecido na Espanha como locação antiga, aplicado a aluguéis assinados durante a ditadura franquista (1939-1975).
Esses contratos mantiveram regras diferentes das locações novas, inclusive sobre a atualização do aluguel e a possibilidade de transferência para familiares. A interpretação do Supremo Tribunal espanhol foi que, no caso de Maricarmen, o contrato não poderia continuar indefinidamente porque se tratava de uma segunda sucessão.
Em 2018, a família proprietária vendeu o edifício para a Renta Corporación. Dois anos depois, a empresa ofereceu à inquilina a compra do apartamento por 247 mil euros, mas ela disse que não tinha condições de pagar. Ainda em 2020, a Renta Corporación vendeu o imóvel para a Urbagestión, atual proprietária.
A nova empresa chegou a cobrar 2.650 euros por mês. Depois, aceitou reduzir o valor para 1.650 euros. Mesmo assim, a quantia superava em 300 euros a aposentadoria mensal de Maricarmen, de 1.350 euros.
A advogada Beatriz Duro afirmou que sua cliente continuou pagando o aluguel anterior e nunca se recusou a pagar. A empresa, por sua vez, sustentou que o contrato antigo havia terminado e que deveria ser aplicado um preço atualizado.
Protesto contra a retirada
A Justiça havia estabelecido três datas para o despejo. Na quarta-feira (23), a comissão judicial entrou no apartamento e executou a ordem. Maricarmen vivia no sexto andar, tinha dificuldade para caminhar e saiu de maca, sendo levada de ambulância ao hospital Gregorio Marañón.
Ativistas acamparam diante do edifício na noite anterior. Entre os apoiadores estavam o ator Carlos Bardem e a cantora Ana Belén. Pela manhã, centenas de pessoas bloquearam a entrada e as escadas, gritando palavras de ordem como “Maricarmen fica”.
A polícia isolou parte da rua e retirou manifestantes e jornalistas da entrada. Alguns ativistas denunciaram agressões e uso de spray de pimenta. A Delegação do Governo disse que os agentes cumpriram um mandado judicial.
Em junho, a Comissão de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais da ONU havia pedido a suspensão do despejo enquanto analisava o caso ou, alternativamente, a oferta de uma moradia adequada para a idosa.
Segundo Beatriz Duro, uma escritora se ofereceu anonimamente para pagar a diferença entre os 500 euros desembolsados por Maricarmen e os 2.650 euros cobrados pela empresa, além de eventuais dívidas. A companhia teria rejeitado a proposta. O Ministério da Habitação da Espanha também informou que a CASA 47, órgão público de moradia, ofereceu comprar o apartamento, mas a Urbagestión recusou.
Aluguéis em alta
O episódio ocorreu em um mercado marcado pela escassez de imóveis nas grandes cidades espanholas, como Madri e Barcelona. Em Madri, o aluguel médio anunciado no portal Idealista chegou a 23,3 euros por metro quadrado em agosto de 2026, alta de 5,1% em relação ao ano anterior.
Em agosto de 2016, a média era de 12,8 euros por metro quadrado. O avanço acumulado em 10 anos foi superior a 80%.
O Banco da Espanha calcula que, entre 2021 e 2025, foram construídas 750 mil moradias a menos do que o necessário para atender à demanda. Em 2025, cerca de 240 mil novos lares foram formados, enquanto aproximadamente 92 mil novas residências chegaram ao mercado.
A ministra da Habitação da Espanha, Isabel Rodríguez, classificou o despejo como “um dia muito triste e dramático” e mencionou os efeitos da especulação imobiliária. O governo de coalizão liderado pelo primeiro-ministro Pedro Sánchez tem responsabilizado empresas de investimentos imobiliários pela situação.
Especialistas, por outro lado, defendem a construção de mais residências e dizem que a insegurança jurídica da legislação, com processos de despejo que podem durar anos, desestimula proprietários a colocar imóveis para alugar.



