SÃO PAULO — A elevação do percentual obrigatório de etanol anidro na gasolina comum abriu uma nova frente de disputa entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro, principal adversário de Lula na corrida presidencial. O governo afirma que a mudança reduz a necessidade de importar gasolina; o candidato do PL questiona o que os consumidores recebem nas bombas.
Desde agosto, a mistura passou temporariamente de 30% para 32%, por decisão do CNPE (Conselho Nacional de Política Energética). A regra vale por 180 dias e pode ser prorrogada uma vez por mais seis meses. O etanol anidro usado na composição é produzido a partir de cana-de-açúcar ou milho.
O Ministério de Minas e Energia estima que a alteração possa evitar a importação anual de cerca de 900 milhões de litros (238 milhões de galões) de gasolina. A BloombergNEF afirma que o Brasil tem a maior proporção obrigatória de etanol do mundo.
Críticas e defesa da segurança
Flávio Bolsonaro comparou a mudança à redução do tamanho de produtos de consumo associada à inflação. Em uma transmissão ao vivo em 20 de agosto, citou rolos de papel higiênico e caixas de ovos e afirmou: “Se você paga por gasolina, deve receber gasolina”.
O senador também levou ao debate preocupações divulgadas nas redes sociais e por entidades da indústria automotiva sobre possíveis danos aos motores. Ele disse que apoiaria o setor brasileiro de etanol por meio de outras políticas. Dois integrantes do PL apresentaram no Congresso propostas separadas para derrubar a resolução do CNPE.
A Lei do Combustível do Futuro, aprovada em 2024, permite ao governo federal ajustar a mistura entre 22% e 35%. Percentuais acima de 27% dependem de viabilidade técnica.
De acordo com Rogerio Gonçalves, diretor de combustíveis da AEA (Associação Brasileira de Engenharia Automotiva), a maior parte dos veículos produzidos no Brasil tem tecnologia flex e pode operar com diferentes combinações de etanol e gasolina. “Eles foram projetados para operar com qualquer mistura de etanol, de 25% a 100%”, disse.
O Ministério de Minas e Energia informou que testes com 16 modelos de automóveis e 13 motocicletas indicaram segurança na mistura de 32%. Novos testes de durabilidade serão feitos antes de uma eventual elevação para 35%. O efeito perceptível apontado por Gonçalves seria uma menor eficiência energética, porque o etanol tem menor densidade energética.
Investimentos e política de longo prazo
Seis entidades dos setores de cana-de-açúcar, etanol de milho e bioenergia rejeitaram a comparação com a chamada “reduflação”. Para as organizações, a analogia engana consumidores e ataca uma política construída ao longo de décadas por governos de diferentes orientações políticas.
As entidades também lembraram que Flávio Bolsonaro era senador quando o projeto do Combustível do Futuro foi aprovado pelo Senado, em votação simbólica na qual apenas um senador registrou oposição.
O Brasil é o segundo maior produtor mundial de etanol, atrás dos Estados Unidos. O investimento global em biocombustíveis chegou a US$ 7,7 bilhões (R$ 39,62 bilhões) no primeiro semestre de 2026, alta de 62% e maior valor semestral desde 2008, conforme a BNEF. As Américas concentraram 58% do total, e quase todo o crescimento regional veio do Brasil, impulsionado por políticas internas e por mercados internacionais de combustíveis mais apertados.
O programa brasileiro de etanol, o Pró-Álcool, começou em 1975, após o choque do petróleo de 1973. O primeiro carro movido exclusivamente a etanol foi lançado em 1979. Atualmente, os veículos flex representam cerca de 80% dos veículos de passeio.
No plano climático nacional divulgado no início de 2026, os biocombustíveis aparecem como um dos pilares da transição energética até 2035. O documento prevê metas para que a mistura obrigatória alcance 35% no etanol e 25% no biodiesel até 2035, condicionadas à aprovação do CNPE.
Para Marcelo Alvarenga, analista do Eurasia Group, a política brasileira de biocombustíveis tende a permanecer semelhante independentemente de uma vitória de Lula ou Flávio Bolsonaro, devido ao apoio do Congresso e da indústria à Lei do Combustível do Futuro. A diferença, segundo ele, é que Lula demonstra maior empenho em desenvolver novas rotas de produção e ampliar as exportações de combustíveis sustentáveis.



