A indústria argentina perdeu aproximadamente 90 mil empregos desde agosto de 2023, segundo a União Industrial Argentina (UIA), que pediu medidas contra a abertura econômica. Desde que Javier Milei assumiu a Presidência, em dezembro de 2023, cerca de 30 mil empresas fecharam, de acordo com dados do setor.
O quadro combina redução da inflação com enfraquecimento da atividade industrial e do consumo. Em junho, as fábricas operavam com cerca de 40% de capacidade ociosa. A produção manufatureira recuou 5% entre junho e julho, maior queda em 16 meses, conforme dados oficiais divulgados na terça-feira (8).
Na fábrica de calçados Kioshi, em Esteban Echeverría, nos arredores de Buenos Aires, o número de funcionários caiu de 120 em 2023 para 14. O diretor Emmanuel Fernández afirma que a retração das compras e o aumento das importações dificultam a operação. “O mercado interno está morto, as pessoas não têm dinheiro para consumir, dificilmente vão comprar calçados”, disse.
O governo de Milei destaca a desregulamentação e a austeridade. No mesmo dia em que a UIA apresentou sua reivindicação, o presidente afirmou que sua política “não é negociável”. Ele também sustenta que os postos eliminados em um setor serão substituídos por empregos em áreas capazes de competir no mercado internacional.
Fechamento de fábricas e informalidade
Em Zárate, a 90 km de Buenos Aires, Miguel Márquez perdeu o emprego após o fechamento da unidade argentina da fabricante de produtos químicos Clariant, onde trabalhou por 20 anos. Dos 42 demitidos, apenas dois conseguiram uma vaga formal, segundo ele. Aos 62 anos, Márquez passou a fazer trabalhos informais, como dirigir para aplicativos.
A Clariant produzia insumos para a indústria petroleira durante o auge da jazida de Vaca Muerta, mas decidiu importar os produtos de sua unidade no Brasil e encerrar a operação argentina.
Desde 2023, o país perdeu mais de 240 mil empregos formais no setor privado. A economia cresceu em 2025, impulsionada pelos hidrocarbonetos, pela mineração e pelo agronegócio, mas o comércio e a indústria recuaram nas grandes cidades.
O ministro da Economia, Luis Caputo, defendeu a abertura e afirmou que sua função é “defender os interesses de 48 milhões de argentinos, não de determinados empresários”. Para ele, os consumidores não deveriam pagar por bens por valores duas, quatro ou dez vezes maiores.
Empresários, porém, apontam dificuldades para competir com produtos importados. Alejandro Mayer, vice-presidente da fábrica de circuitos Ernesto Mayer, citou o atraso cambial, os juros elevados e a carga tributária. A empresa opera com a metade das máquinas desligadas.
A inflação, que estava em três dígitos quando Milei assumiu, chegou a 33,8% na comparação interanual em julho. O presidente da UIA, Martín Rappallini, afirma que a economia também precisa ser avaliada pela atividade.
Na fábrica de cordas Martin Blust, que emprega dez pessoas, as atividades são interrompidas às sextas-feiras por falta de encomendas. A sócia Gloria Aparicio resume o efeito sobre a demanda: “Não há inflação porque não há compras”. Pesquisas indicam que emprego e salários se tornaram a principal preocupação dos argentinos, à frente da inflação, em um cenário de pressão sobre Milei antes da tentativa de reeleição em 2027.


