Javier Milei chega ao período anterior à próxima eleição argentina pressionado por uma economia que perdeu ritmo e por eleitores mais preocupados com empregos e salários do que com a inflação. O presidente mantém a promessa de aprofundar suas reformas, mas sua aprovação se aproxima dos 30% e o crescimento está abaixo do previsto.
Milei assumiu o cargo em dezembro de 2023, quando a inflação alcançava 13% ao mês e os gastos públicos eram financiados pela emissão de dinheiro. Desde então, o governo reduziu despesas, obteve superávits fiscais e levou a inflação para cerca de 2% ao mês. A parcela da população vivendo na pobreza caiu para 28%, cerca de um terço a menos.
O governo também afirma ter eliminado 17 mil regulamentos e aprovado uma reforma trabalhista abrangente. O banco central argentino comprou reservas em dólares, enquanto o avanço das exportações de petróleo ajudou a fortalecer as contas externas. A dívida externa também passou a ser administrada pelo governo.
Crescimento perde força
A economia deve registrar um segundo ano consecutivo de crescimento, mas em ritmo inferior ao planejado. A previsão oficial era de expansão de 5% neste ano; a maioria dos analistas espera quase metade disso depois de vários meses de contração.
A atividade está concentrada em hidrocarbonetos, mineração e agricultura, setores que empregam menos trabalhadores. Já a manufatura e a construção permanecem pelo menos 10% abaixo do nível registrado quando Milei assumiu. A abertura à concorrência estrangeira afetou fábricas protegidas, tornando a transição mais difícil.
O setor privado formal tem 230 mil empregos a menos do que em 2023, uma queda de 3,6%. Ao mesmo tempo, Milei afirma ter cortado 86 mil cargos públicos. A taxa de desemprego subiu dois pontos percentuais, enquanto aumentaram as inscrições em um regime tributário voltado a pequenos empresários de baixa renda. O trabalho informal também cresceu.
Os salários do setor privado formal continuam abaixo do nível do início do governo. No serviço público, a remuneração caiu de forma mais acentuada. Quase 6 milhões de pessoas têm dívidas atrasadas há mais de 90 dias, em um cenário de juros altos e voláteis.
A política monetária restritiva ajudou no combate à inflação, mas limita o crédito. O peso forte também reduz a competitividade da indústria, ao baratear importações concorrentes e encarecer exportações.
Pressão política
A inflação, que era apontada como o principal problema pelos eleitores no início do mandato, agora aparece na oitava posição. A falta de empregos e os baixos salários lideram as preocupações. Escândalos de corrupção envolvendo o governo também contribuíram para o desgaste do presidente.
Milei continua defendendo suas convicções e diz que não vai mudar suas políticas apenas por causa do resultado eleitoral. Ele promete novos cortes de gastos e redução de impostos caso seja reeleito, além de apostar na inteligência artificial para transformar a Argentina em uma potência mundial em 20 anos.
O presidente também mantém uma relação próxima com o governo de Donald Trump. Antes da eleição de meio de mandato do ano passado, o banco central argentino gastou mais de US$ 1 bilhão em dois dias para conter a queda do peso. Trump ofereceu uma linha de swaps de US$ 20 bilhões e compras diretas de pesos pelo Tesouro dos Estados Unidos. A moeda se estabilizou, e o partido de Milei obteve uma vitória expressiva.
A relação com a China também se tornou mais pragmática. No mês passado, o país asiático estendeu uma linha de swaps de US$ 19 bilhões com o banco central argentino. A China é um dos principais parceiros comerciais da Argentina.
No exterior, Milei visitou os Estados Unidos cerca de 17 vezes e Israel três vezes desde que assumiu, mas ainda não foi a 8 das 23 províncias argentinas. Em 3 de setembro, intensificou a retórica sobre as reivindicações argentinas às Ilhas Malvinas.
Rivais para a próxima eleição
O principal provável desafiante é Axel Kicillof, governador peronista da província de Buenos Aires e ex-ministro das finanças. Sua aprovação é tão baixa quanto a de Milei. Sergio Massa, derrotado por Milei na eleição anterior, pode tentar novamente, enquanto Juan Grabois também avalia uma candidatura.
Myriam Bregman, trotskista de alto perfil, aparece à esquerda dos peronistas e tem aprovação superior à de Kicillof e Milei. Entre os nomes de centro-direita está Hernán Lacunza, ex-ministro das finanças que defende uma economia semelhante à de Milei, mas sem os ataques verbais do presidente.
Governadores provinciais e pastores pentecostais que aparecem na televisão também sondam o cenário. Milei continua sendo o favorito, mas a combinação de crescimento lento, dificuldades no mercado de trabalho e queda na aprovação torna a disputa mais apertada.



