A decisão de André Mendonça de afastar Andrei Rodrigues da direção-geral da Polícia Federal encerra, por enquanto, uma sequência de conflitos envolvendo o ministro do Supremo Tribunal Federal, a cúpula da corporação e investigações sobre o Banco Master e o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
O afastamento foi motivado, segundo a decisão, pela produção de um relatório interno da PF usado por Alexandre de Moraes para pedir uma investigação contra Mendonça por abuso de autoridade, improbidade administrativa e crime de responsabilidade. O pedido foi encaminhado ao presidente do STF, Edson Fachin, no âmbito do inquérito das fake news.
O documento utilizado por Moraes não tem valor probatório e não pode ser empregado em procedimentos. A PF trabalha com informações que podem receber grau de confiança baixo ou moderado. Entre os pontos mencionados está a suspeita de que Mendonça direcionaria investigações contra Davi Alcolumbre, presidente do Senado.
A crise se agravou depois que Mendonça retirou o sigilo de um relatório policial sobre as relações de Daniel Vorcaro com uma pessoa apontada como Alexandre de Moraes. As mensagens indicavam que o banqueiro perguntou ao ministro se deveria deixar o país dois dias antes de ser preso, em 17 de novembro de 2025.
O material também registrava edições feitas por Moraes em um contrato de R$ 131 milhões entre o Banco Master e o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, sua mulher. Os dois teriam se encontrado pelo menos seis vezes desde 2024. Horas depois da divulgação, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, pediu a anulação do relatório e afirmou que Mendonça havia usado a polícia para impor uma investigação contra Moraes.
Disputas sobre o comando das apurações
Em abril, Mendonça restringiu o acesso a inquéritos da PF para delegados que não fizessem parte diretamente das equipes responsáveis pelos casos. A medida alcançou integrantes da cúpula da corporação e superiores dos investigadores. O ministro justificou a decisão pela necessidade de evitar interferências e vazamentos, citando sua experiência no Ministério da Justiça e na Advocacia-Geral da União durante o governo Jair Bolsonaro.
No caso da operação Sem Desconto, que apura fraudes no INSS, Mendonça determinou em junho que a PF examinasse, em até 60 dias, materiais apreendidos durante a operação. A corporação pediu mais prazo e alegou ter 11 agentes no caso, embora calculasse que seriam necessários mais de 40.
A análise incluía a possível quebra dos sigilos bancário, fiscal e telemático de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A autorização havia sido dada pelo ministro em fevereiro.
A relatoria de Mendonça no caso Master também provocou críticas de Gilmar Mendes. O ministro o acusou de interferir em negociações de delação de Vorcaro que haviam sido rejeitadas pela PF e pela Procuradoria-Geral da República. “O direcionamento de uma delação premiada para atingir alvos políticos predeterminados” comprometeria, segundo Gilmar, a validade do acordo e de seus resultados.
Em meio à disputa, Mendonça confirmou que Vorcaro prestou depoimento com a presença do Ministério Público e sem participação da PF. Em nota, disse que a oitiva foi solicitada pela defesa do banqueiro, que relatou intimidações e pediu urgência. O ministro afirmou que não foram tratados assuntos relacionados a Moraes.

