A Advocacia-Geral da União (AGU) planeja recorrer da decisão de André Mendonça que afastou Andrei Rodrigues da direção da Polícia Federal. A medida deve levar o governo de Luiz Inácio Lula da Silva a participar diretamente da disputa entre Mendonça e Alexandre de Moraes no Supremo Tribunal Federal (STF), embora Lula tentasse manter distância da crise.
Aliados do presidente avaliam que a decisão prejudica a estratégia eleitoral do governo e transforma o conflito no Supremo em um tema da campanha. Na avaliação de auxiliares do petista, Mendonça agiu politicamente para beneficiar Flávio Bolsonaro e criou uma situação que empurra o Palácio do Planalto para o centro da crise.
Disputa no Supremo
Mendonça foi indicado ao STF pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, pai de Flávio. O ministro determinou o afastamento de Andrei na manhã desta terça-feira (8). Depois, a Segunda Turma do tribunal formou maioria para confirmar a ordem, com votos favoráveis de Nunes Marques e Luiz Fux. O julgamento foi interrompido após pedido de vista de Gilmar Mendes.
A decisão atribui o afastamento à produção de um relatório interno da Polícia Federal. O documento foi usado por Moraes para pedir uma investigação contra Mendonça por abuso de autoridade, improbidade administrativa e crime de responsabilidade na condução dos inquéritos sobre o Banco Master e o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
Moraes é apontado como antagonista de Mendonça no Supremo. A oposição associa o ministro ao PT por causa dos inquéritos sobre fake news e sobre a tentativa de golpe de Estado. Ele foi indicado ao cargo pelo ex-presidente Michel Temer em 2017 e teve momentos de proximidade com Lula durante o atual governo.
A disputa entre os dois ministros abriu uma crise sem precedentes na história recente do STF. O episódio também ampliou a pressão sobre Davi Alcolumbre, presidente do Senado, que mantém represados pedidos de impeachment contra ministros da corte.
Pressão sobre o Senado
Governistas avaliam que a decisão de Mendonça pode ter como objetivo pressionar Alcolumbre a colocar em votação algum dos pedidos contra Moraes. Aliados do senador entendem que o afastamento transmite a possibilidade de avanço das investigações sobre o presidente do Senado.
O relatório citado por Mendonça indicava que a investigação havia sido direcionada a Moraes e também a Alcolumbre. Mesmo após a nova crise envolvendo o Banco Master, o presidente do Senado sinalizou que manteria os pedidos de impeachment sem votação.
O líder da oposição, deputado Sóstenes Cavalcante, disse que a decisão colocou o governo na crise e afirmou: "Aprofunda o problema para eleição de Lula, Andrei era indicação dele."
O ministro das Relações Institucionais, José Guimarães, classificou a determinação como "descabida e uma intromissão onde não lhe cabe". Ele afirmou que a apuração de eventuais delitos é correta, mas avaliou que a medida tinha caráter eleitoral e pediu providências ao STF.
Banco Master
As investigações sobre o Banco Master estão sob responsabilidade de Mendonça, que tornou públicas informações envolvendo Moraes. O ministro reagiu e pediu que o colega fosse investigado com base no relatório da Polícia Federal.
O empresário Daniel Vorcaro, antigo dono do banco, teria consultado Moraes sobre a possibilidade de deixar o país para evitar a prisão. A troca de mensagens ocorreu poucos dias antes da detenção de Vorcaro. Além disso, Moraes editou um contrato de R$ 131 milhões entre o banco e o escritório de advocacia de sua mulher, Viviane Barci.
O governo ainda avalia como reagir politicamente. Entre as possibilidades está afirmar que Mendonça tenta impedir o avanço das investigações da Polícia Federal sobre o caso Master e transformar a disputa no Supremo em um dos temas das eleições.


