A indústria dos Estados Unidos enfrenta uma nova rodada de aumento de custos, impulsionada pela alta da energia, pelas tarifas de importação e pela disputa por componentes eletrônicos usados em data centers de inteligência artificial. Fabricantes relatam que matérias-primas, frete e insumos estão mais caros, em alguns casos com aumentos de dois dígitos.
A pressão já levou empresas a reajustar preços. A EarthQuaker Devices, fabricante de pedais para guitarra com sede em Ohio, aumentou seus preços duas vezes neste ano. A presidente-executiva da companhia, Julie Robbins, afirmou: "Precisamos gastar cada vez mais dinheiro para comprar as mesmas coisas".
O movimento também ganhou peso político para Donald Trump antes das eleições de meio de mandato. A alta da inflação contrasta com a declaração feita pelo presidente na convenção nacional do Partido Republicano em Dallas na semana passada, quando disse que estava "baixando os preços muito, muito, muito".
Matérias-primas e transporte
Mais de uma dúzia de setores informaram aumento nos preços das matérias-primas na pesquisa de agosto do ISM (Instituto para Gestão da Oferta). Nenhum dos segmentos pesquisados registrou queda. O índice geral de preços do instituto acumula alta desde o início de 2026 e registra aumento de custos há 23 meses consecutivos.
Gerentes de produção relataram aumentos nos preços de produtos derivados de petróleo e nos custos de aço e alumínio. Enquanto os preços cobrados pelos produtores por produtos acabados subiram 6,6% em agosto, na comparação anual, os bens usados na produção tiveram alta maior.
O índice de preços dos bens processados intermediários avançou 11,5% em agosto ante o mesmo mês do ano anterior. A medida para bens não processados, como sucata metálica, subiu 12,8%, segundo o Bureau of Labor Statistics.
O preço do diesel atingiu US$ 6,23 (R$ 32,02) por galão na segunda-feira (14), recorde registrado pela Associação do Setor Automotivo. O preço médio por remessa de carga aumentou 16% em agosto, na comparação anual, segundo cálculos baseados em dados da Cass Information Systems.
Na Wyoming Machine, fabricante de peças metálicas nos arredores de Minneapolis, a copresidente Traci Tapani relatou interrupções na obtenção de matérias-primas. Segundo ela, o aço apresentava problemas de oferta.
Componentes eletrônicos
Executivos da indústria diferenciam o cenário atual das interrupções da pandemia de Covid-19. Para a maioria dos setores, os produtos continuam disponíveis, mas a preços mais altos. Kip Eideberg, vice-presidente sênior de relações governamentais e industriais da Association of Equipment Manufacturers, disse que o principal problema passou a ser o custo, e não a escassez.
Na indústria eletrônica, porém, a expansão dos data centers de inteligência artificial aumentou a disputa por componentes especializados, como chips de memória e processadores. Fornecedores têm dificuldade para acompanhar a demanda. Um participante da pesquisa do ISM descreveu a cadeia do setor como em uma crise maior e mais complexa do que a observada durante e depois da Covid-19.
Shawn DuBravac, da Global Electronics Association, afirmou que a procura é impulsionada pelo investimento em infraestrutura de IA. Dependendo do componente, os prazos de entrega chegam a vários anos. Em uma pesquisa da GEA realizada no mês passado, quase dois terços dos fabricantes de eletrônicos no mundo relataram disponibilidade limitada de componentes ou prazos mais longos.
Mesmo com a alta dos preços, muitos setores demonstram pouco interesse em ampliar significativamente a capacidade produtiva. As empresas enfrentam incertezas relacionadas à guerra no Irã e às tarifas. Zac Rogers, professor de gestão da cadeia de suprimentos da Universidade do Estado do Colorado, disse que as empresas não farão grandes investimentos de capital sem alguma certeza sobre as condições do mercado daqui a um ano.
A alta dos custos também contribuiu para vendas no mercado de títulos. O rendimento dos títulos do Tesouro americano de dez anos chegou a 5% nesta semana, pela primeira vez desde 2023. A inflação alimentou apostas de que o Fed (Federal Reserve) elevará os juros na quarta-feira (16).



