OSLO — A jornalista filipino-americana Maria Ressa, vencedora do Nobel da Paz de 2021, defendeu a criação de regras para limitar o avanço da inteligência artificial e responsabilizar grandes empresas de tecnologia. Para ela, os cidadãos precisam pressionar políticos e autoridades a regulamentar o uso da tecnologia antes que a sociedade perca a capacidade de controlá-la.
“Pedir regulamentação não é uma questão de liberdade de expressão. É uma questão de segurança pública”, afirmou Ressa. Ela é copresidente do painel científico internacional da Organização das Nações Unidas sobre inteligência artificial, grupo que analisa os efeitos da tecnologia na vida das pessoas, e cofundadora e presidente-executiva do site Rappler.
As três fases da inteligência artificial
Ressa afirmou que a tecnologia atravessou três ondas de popularização ao longo de cerca de 70 anos. A primeira teria sido marcada pelas redes sociais, que capturaram a atenção dos usuários, ampliaram a polarização e contribuíram para o isolamento.
Na segunda etapa, os chatbots passaram a explorar aspectos ligados à biologia humana, especialmente a busca por intimidade e conexão. A terceira envolve sistemas chamados de IA agentiva e multiagentiva, capazes de reproduzir comportamentos humanos e executar ações em nome das pessoas.
A jornalista também rejeitou o argumento de que novas regras poderiam enfraquecer a competição tecnológica dos Estados Unidos com a China. Ela citou restrições de idade existentes na versão chinesa do TikTok e afirmou que a China adota mais salvaguardas para seus cidadãos do que o Vale do Silício oferece ao restante do mundo.
Responsabilidade das empresas
Para Ressa, o início da mudança deve ser a responsabilização das big techs pelos danos associados a seus produtos. Ela mencionou ações judiciais nos Estados Unidos que fizeram a Meta assumir pagamentos de até US$ 18 bilhões ao longo da próxima década e limitar de forma significativa o uso do Facebook e do Instagram por adolescentes.
A jornalista elogiou iniciativas da União Europeia e da Austrália para estabelecer idades mínimas nas redes sociais, mas disse que essas medidas não enfrentam o problema da dependência entre adultos. Na avaliação dela, as plataformas deveriam retirar recursos que estimulam esse comportamento de todos os usuários, e não apenas dos jovens.
Ressa também defendeu plataformas de comunicação mantidas por grupos de interesse público e independentes das grandes empresas de tecnologia. Ela citou o Rappler Communities, lançado em 2023 com base no protocolo aberto, seguro e descentralizado Matrix. A iniciativa conecta diretamente a redação aos leitores e permite a interação entre eles.
O Rappler convidou outros veículos das Filipinas a aderir ao projeto e passou a ampliar o modelo para países do Sudeste Asiático. Para Ressa, esses espaços devem permitir que as pessoas conversem e se escutem com segurança no ambiente digital.



