Sem mudanças nas regras da Organização Mundial do Comércio (OMC), o PIB global pode recuar 5,1% e as exportações mundiais, 18,6% até 2050. As estimativas estão no World Trade Report 2026, relatório anual de pesquisa e análise econômica da entidade, divulgado nesta terça (15).
O estudo avalia que a ausência de reformas ampliaria a fragmentação comercial. Nesse cenário, governos voltariam a elevar barreiras alfandegárias sem coordenação e a criar mais exigências regulatórias, reduzindo o comércio e afetando a atividade econômica.
O impacto seria maior nos países mais pobres: segundo os cálculos, a perda de atividade econômica nesses países seria três vezes superior à observada no conjunto do mundo.
Cenários para o comércio mundial
A OMC também simulou uma situação em que a organização deixasse de existir e o comércio internacional fosse regulado apenas por acordos bilaterais e regionais de livre comércio. Nesse caso, o PIB global cairia 6,9% até 2050, enquanto as exportações recuariam 26,9%.
No cenário oposto, de cooperação comercial reforçada, o PIB mundial teria alta de 2,9% e as exportações cresceriam 17,9% até 2050. A diferença entre os resultados extremos chegaria a 10 pontos percentuais do PIB real global.
“A diferença entre um futuro de cooperação multilateral reforçada e um futuro de erosão do sistema de comércio pode chegar a até 10 pontos percentuais do PIB real global”, afirmou Robert Staiger, economista-chefe da OMC. Para ele, a comparação mostra o custo potencial de não realizar mudanças no sistema.
O relatório informa que a parcela do comércio global submetida ao princípio da nação mais favorecida caiu de 80%, há quatro anos, para 72% atualmente. Esse mecanismo determina que uma vantagem comercial concedida por um país a outro seja estendida aos demais parceiros.
Reformas em discussão
Entre os temas avaliados está a dificuldade de obter o consenso dos 166 membros da OMC para tratados amplos. Uma alternativa seria ampliar as negociações plurilaterais, com grupos de países discutindo assuntos de interesse comum.
A organização também aponta a necessidade de que países emergentes assumam compromissos de abertura compatíveis com seu peso crescente no comércio mundial, considerando suas condições de desenvolvimento.
Outro ponto é a reconstrução de um sistema de solução de disputas com uma instância recursiva eficaz. O órgão de apelação da OMC está paralisado desde 2019, depois que os Estados Unidos bloquearam a indicação de novos juízes.
A entidade defende ainda a atualização das regras sobre subsídios. O objetivo seria criar critérios mais claros para separar políticas consideradas legítimas, como medidas de descarbonização, de incentivos capazes de distorcer a concorrência internacional.
Quatro pressões sobre o sistema
A OMC identifica quatro desafios principais. O primeiro é a redistribuição do poder econômico. Desde a criação da organização, na década de 1990, os países em desenvolvimento quase dobraram sua participação no comércio internacional e passaram a responder por 45% do comércio de bens.
Essa mudança tornou mais difícil negociar tarifas. Países ricos já têm poucas tarifas para reduzir, enquanto economias emergentes mantêm limites tarifários mais altos.
O segundo desafio é o crescimento das políticas industriais, dos recursos públicos e da atuação de empresas estatais. A expansão dos subsídios aumenta a percepção de concorrência desleal e dificulta a convivência entre modelos econômicos diferentes sob as mesmas regras.
O terceiro está relacionado às mudanças nas cadeias globais de suprimentos e ao comércio digital, que cresceu 10% apenas em 2025. As transações digitais enfrentam regras internas de cada país, enquanto as normas tradicionais da OMC não foram originalmente formuladas para esse tipo de atividade.
Por fim, a rivalidade entre grandes potências reduziu a confiança na interdependência econômica. Restrições a exportações e acordos priorizando países aliados elevaram o risco de divisão do mercado mundial em blocos rivais.
“O relatório não é um argumento para preservar o sistema multilateral inalterado”, disse Staiger. Segundo ele, a proposta é adaptar as regras, corrigir o que deixou de funcionar e manter os mecanismos considerados eficazes.


