A Organização Mundial do Comércio (OMC) afirmou nesta terça-feira (15) que o sistema de comércio global atravessa um momento crítico. A entidade defendeu a atualização das regras internacionais e alertou para o risco de o comércio deixar de operar com normas comuns e passar a se organizar em blocos de países.
A avaliação considera mudanças como a maior intervenção dos governos na economia, o crescimento do comércio digital, a transformação das cadeias globais de produção e o aumento das tensões políticas entre grandes potências.
Impacto de uma divisão em blocos
Estimativas da OMC indicam que uma fragmentação do comércio internacional em blocos geopolíticos concorrentes reduziria o PIB global em 5,1% até 2050. As exportações cairiam 18,6% em comparação com um cenário sem essa divisão.
Em uma situação mais grave, com o fim da cooperação comercial e sua substituição por acordos de livre comércio separados, o PIB global poderia ficar 6,9% menor. As exportações recuariam quase 27%. Os países menos desenvolvidos seriam os mais prejudicados.
A organização também calcula que uma cooperação multilateral mais forte poderia elevar o PIB global em 2,9% e aumentar as exportações em quase 18%.
Disputas pressionam as regras internacionais
A escalada comercial entre Estados Unidos e China começou em 2018, quando o governo de Donald Trump impôs tarifas sobre produtos chineses. A China respondeu com medidas sobre produtos americanos. Desde então, a relação continuou marcada por tarifas, restrições tecnológicas e disputa por setores como semicondutores, baterias e veículos elétricos.
Os Estados Unidos também adotaram medidas contra produtos do Canadá, incluindo aço e alumínio. Em 2025/2026, o Brasil passou a enfrentar novas tarifas americanas e, em julho de 2026, levou a disputa à OMC para contestá-las.
A expansão das exportações chinesas de carros elétricos, aço e produtos industriais gerou novas reações dos Estados Unidos, da União Europeia e de outros parceiros. Governos acusam Pequim de subsidiar empresas e provocar excesso de oferta. A China, por sua vez, critica o uso de tarifas para proteger mercados.
A OMC perdeu capacidade de resolver disputas desde que seu Órgão de Apelação ficou paralisado em 2019, após os Estados Unidos bloquearem a nomeação de novos integrantes. Os países ainda podem apresentar casos à organização, mas ficou mais difícil alcançar uma decisão final.
Reforma depende de consenso
A OMC reúne 166 membros e funciona em grande parte por consenso. Por isso, mudanças relevantes dependem de negociações entre países com diferentes níveis de desenvolvimento e interesses econômicos.
Em março, os membros não chegaram a um acordo sobre um pacote de reformas durante uma reunião ministerial em Yaoundé, nos Camarões. As negociações foram retomadas em Genebra e tratam da tomada de decisões, da solução de disputas e dos efeitos de subsídios e da intervenção dos governos.
Enquanto a reforma avança com dificuldade, países recorrem a acordos regionais ou setoriais, além de tarifas e negociações diretas. Em março, um grupo de membros concordou em avançar com regras básicas para o comércio digital por meio de um acordo plurilateral, sem a participação de todos os integrantes.
Para a OMC, o desafio é impedir que disputas comerciais resultem em uma divisão permanente do comércio mundial. A organização afirma que o afastamento de regras comuns pode elevar os custos para a economia global, sobretudo para os países mais pobres.


