A Polícia Federal atribui a Augusto Lima, ex-sócio do Banco Master, a elaboração de carteiras de crédito consignado consideradas fraudulentas e repassadas ao BRB, instituição controlada pelo governo do Distrito Federal. Segundo a PF, o BRB comprou R$ 12,2 bilhões em CCBs (Cédulas de Crédito Bancário) classificadas como falsas. Uma auditoria citada no documento estimou prejuízo de pelo menos R$ 5 bilhões ao banco público.
As informações passaram a ser públicas depois que documentos do caso Master tiveram o sigilo retirado na quinta-feira (10). A petição da PF buscava autorização para quebrar os sigilos bancário e fiscal dos envolvidos e aprofundar as investigações.
Pagamentos e negociações com o BRB
O documento registra pagamentos do Master à Terra Firme, empresa controlada por Lima. Para a PF, os repasses coincidiram com períodos em que o empresário teria atuado junto ao BRB para liberar recursos ao banco de Daniel Vorcaro.
A polícia identificou pagamentos superiores a R$ 3 milhões feitos pelo Master à Terra Firme e afirmou que eles coincidem, em vários momentos, com interferências atribuídas a Lima para que o BRB pagasse pelas carteiras. Em 29 de agosto de 2024, uma nota da Terra Firme enviada ao Master tinha o valor de R$ 3.665.962,47. Em 7 de abril de 2025, outras duas notas somaram R$ 7.000.192,59, com valores de R$ 3.334.230,12 e R$ 3.665.962,47.
A PF também reproduziu mensagens que, segundo os investigadores, mostram a participação de Lima nas negociações entre Master e BRB. Em um dos episódios citados, Lima e Henrique Peretto, apontado como controlador e dono da Tirreno, trocaram mensagens para participar de uma reunião com Paulo Henrique Costa, então presidente do BRB, em 28 de maio de 2025.
Mensagens enviadas por Vorcaro foram apontadas como outro indício do papel de Lima. A investigação afirma que o ex-banqueiro recorria pessoalmente ao empresário para que ele interviesse junto ao BRB e obtivesse pagamentos ao Master.
Origem das carteiras
As carteiras transferidas ao BRB eram originadas de operações de crédito consignado. O Master havia comprado os ativos da consultoria Tirreno, criada em dezembro de 2024 e prestadora de serviços ao banco de Vorcaro de janeiro a junho de 2025.
Antes disso, parte dos empréstimos consignados havia sido firmada por associações de servidores públicos da Bahia. Mais tarde, essas associações foram relacionadas a Lima. A petição afirma que, a partir de janeiro de 2025, as carteiras aparentemente passaram a ser elaboradas pelo próprio empresário.
O empresário é conhecido como criador do Credcesta, cartão de benefício consignado cujas parcelas são descontadas da folha de pagamento. O produto foi lançado para servidores públicos da Bahia em 2018 e disseminado pelo Master, alcançando 24 estados e 176 municípios.
Em novembro de 2024, segundo a PF, o BRB já identificava problemas nas carteiras do Master. Uma carteira Credcesta tinha valor contábil de R$ 179,6 milhões, mas apenas R$ 110 milhões foram considerados aptos, uma redução de quase 40%.
A polícia também afirma que Dário Garcia, então diretor de finanças e controladoria do BRB, com aval de Paulo Henrique Costa, atuou para elevar de 4% para 5% o limite de inadimplência aceito nas carteiras. Novas compras seriam feitas em tranches, sem a necessidade de reiniciar todo o processo de aprovação.
Defesa nega participação
Lima foi preso em novembro, na Operação Compliance Zero, junto com Vorcaro e outros executivos, sob suspeita de envolvimento nas fraudes. Ele foi solto 11 dias depois e passou a usar tornozeleira eletrônica.
A defesa do empresário negou as acusações e afirmou que ele deixou a sociedade e a direção do Master em 28 de maio de 2024. De acordo com os advogados, Lima não tratou com representantes do BRB sobre carteiras falsas, não participou das negociações e não assinou documentos de cessão de carteiras ao banco.
A defesa também disse que havia contrato regular para os serviços prestados pela Terra Firme e rejeitou a hipótese de desvio de recursos. Sobre a relação com as associações de servidores, afirmou que a PF já havia afastado essa alegação em relatório.
O documento da PF tem 82 páginas e traz, ao final, a data de 3 de fevereiro de 2025. A assinatura digital da delegada aparece registrada em 18 de fevereiro de 2026. A petição foi endereçada ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, que assumiu a relatoria do caso Master em 12 de fevereiro.


