A Polícia Federal concluiu que o Banco de Brasília (BRB) transferiu cerca de R$ 17 bilhões ao Banco Master na compra de carteiras de crédito. Desse total, aproximadamente R$ 12,2 bilhões correspondiam a títulos falsos, sem valor, conforme documentos do caso tornados públicos pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
A fraude, segundo os investigadores, envolvia Cédulas de Crédito Bancário (CCBs) falsas, originadas de empréstimos consignados inexistentes. Os créditos eram gerados pela Tirreno, empresa de fachada criada em dezembro de 2024 e controlada pela Cartos (Sociedade de Crédito Direto).
Operações aceleradas
Mensagens extraídas dos celulares de Paulo Henrique Costa, então presidente do BRB, e Dário Oswaldo Garcia Junior, diretor de finanças, mostram dúvidas sobre as carteiras negociadas pelo Master. Em uma conversa de 26 de novembro de 2024, Costa escreveu: “Não entendo quando dizem que não há carteira e aparece uma nova”. Garcia respondeu: “Nem eu”.
Três dias depois, Garcia informou a Costa que o Master enviaria para assinatura imediata um contrato de cessão de R$ 400 milhões, com liquidação prevista para a sexta-feira seguinte. Segundo a PF, a operação ocorreu em velocidade incompatível com os procedimentos de análise bancária.
Os primeiros contratos foram enviados pelo Master, assinados pela equipe do BRB e cancelados na sequência. Ainda no mesmo dia, o banco recebeu novas versões alteradas. Perto das 17h30, a equipe do BRB assinou três contratos sucessivos em poucos minutos, sem análise técnica, de acordo com a investigação.
A PF também identificou mudanças nos limites de inadimplência das carteiras, de 4% para 5%, além do fatiamento de contratos para permitir liberações em tranches e aprovações fora do fluxo regular de governança.
Uma carteira Credcesta chegou ao BRB com valor contábil de R$ 179,6 milhões, mas apenas R$ 110 milhões foram considerados aptos para compra. A documentação recebida do banco de Daniel Vorcaro, segundo os investigadores, já indicava ausência de lastro adequado, manipulação e movimentações atípicas entre fundos de investimento.
Alertas do Banco Central
Em fevereiro de 2025, o BRB assinou um termo de ajustamento de conduta (TAC) com o Banco Central depois que auditorias apontaram falhas na avaliação de créditos do Credcesta, no envio de documentos e informações e no acompanhamento das operações.
Mesmo após o acordo, o banco comprou mais R$ 4 bilhões em créditos. A PF afirma que a continuidade das aquisições indica que a diretoria tinha conhecimento das irregularidades. Em maio de 2025, o BRB ainda teria mantido “apetite elevado” pelos ativos do Master, que já havia vendido R$ 12,2 bilhões em créditos fictícios.
Anotações de uma reunião da diretoria realizada em 11 de julho de 2025 registram que o presidente do BRB teria defendido a conclusão das compras apesar de pareceres jurídicos contrários emitidos desde abril de 2025.
O BRB afirmou que removeu integralmente a diretoria executiva que comandava a instituição durante os negócios com o Master. A atual gestão disse que os ex-dirigentes não devem ser confundidos com o banco e que adotará medidas para proteger o patrimônio, buscar eventual ressarcimento e aprimorar controles e governança.
Participação atribuída ao Master
A PF atribuiu a Augusto Lima a elaboração de carteiras fraudulentas repassadas ao BRB. O empresário é apontado como criador do Credcesta, cartão de benefício consignado lançado para servidores públicos da Bahia em 2018 e posteriormente disseminado para 24 estados e 176 municípios.
Lima foi preso em novembro na Operação Compliance Zero, junto com Vorcaro e outros executivos, por suspeita de envolvimento nas fraudes. Ele foi solto 11 dias depois e passou a usar tornozeleira eletrônica.
A partir de janeiro de 2025, as carteiras teriam passado a ser elaboradas pelo próprio Lima. As investigações analisam mensagens trocadas por ele com Henrique Peretto, controlador da Tirreno, e com Daniel Vorcaro, que cobrava contratos e CCBs para obter recursos no BRB.
Em um grupo chamado “INFO-BRB”, criado em maio e restrito a Vorcaro, Alberto Félix e Ângelo Ribeiro, uma conversa registrou a alteração do saldo de um extrato da Tirreno. O valor passou de R$ 6,4 milhões para R$ 7,2 milhões e depois para outro montante sem correspondência com os anteriores.
Segundo a PF, funcionários do Master sabiam que os créditos não existiam e enfrentavam dificuldades para registrá-los junto aos órgãos pagadores.
A defesa de Augusto Lima rejeitou as acusações, afirmou que elas foram apresentadas no início da investigação e disse que não se sustentam diante dos elementos reunidos posteriormente. Lima também negou proximidade com o BRB e participação na negociação das carteiras. Ele declarou ter deixado a sociedade e a direção do Master em maio de 2024.


