A evidência disponível indica que o repasse cambial para a inflação é assimétrico: a desvalorização da moeda tende a elevar os preços mais do que a apreciação tende a reduzi-los. Essa diferença pode deixar um resíduo inflacionário após ciclos de alta e queda do dólar, pressionando os juros reais.
Uma metanálise publicada em 2025 no Journal of Economic Surveys reuniu 72 estudos, com 1.219 estimativas de repasse cambial em 111 países. Considerando diferenças metodológicas entre as pesquisas, o trabalho estima que uma depreciação cambial de 1% esteja associada a uma alta de aproximadamente 0,19% nos preços ao consumidor. No caso de uma apreciação de 1%, a redução estimada é de 0,09% — menos da metade.
Resultados em diferentes economias
O padrão aparece em países com características distintas. Um artigo publicado em 2012 no Journal of Macroeconomics, com dados da Alemanha, do Japão, dos Estados Unidos e do Reino Unido entre 1980 e 2009, encontrou maior repasse das depreciações aos preços ao consumidor no longo prazo.
Outro estudo, publicado em 2017 no Journal of the Royal Statistical Society, identificou resultado semelhante para os preços de importação em 33 economias desenvolvidas e emergentes.
O relatório de 2019 do Banco Mundial, Inflation in Emerging and Developing Economies: Evolution, Drivers, and Policies, apresenta evidências de que a diferença é mais acentuada em economias emergentes. Os coeficientes ficam na ordem de 0,1 a 0,4 para depreciações e de 0,02 para apreciações.
Resultados compatíveis também aparecem em um artigo de dois economistas do FMI, publicado na revista International Finance em 2019, e em um estudo de 2025 no Oxford Bulletin of Economics and Statistics, que identificou a assimetria ao menos no curto prazo.
O repasse depende de fatores como a natureza do choque que movimenta o câmbio e as condições domésticas de absorção, incluindo o grau de ancoragem das expectativas. O trabalho de Marco Bonomo e coautores, citado por Samuel Pessôa, mostra que, quando as expectativas estão desancoradas, o efeito de uma depreciação volta a superar o de uma apreciação.
A existência de condições que alteram a intensidade do repasse não elimina a assimetria média observada nos estudos. Por isso, ela deve ser considerada entre os elementos associados à manutenção de juros reais elevados no Brasil.


