SANTARÉM (PA) — Ameaças, agressões e decisões judiciais levaram veículos regionais do Norte e do Nordeste a interromper ou restringir a cobertura eleitoral. O portal Tapajós de Fato suspendeu a cobertura depois que profissionais foram atacados: um jornalista foi esfaqueado e um colaborador recebeu a cabeça de um gato.
O portal, especializado na cobertura da Amazônia e em denúncias de violações ambientais no sul e no sudeste do Pará, já havia deixado de cobrir uma eleição em 2024. As ameaças começaram em 2022, quando também ocorreram a entrega da cabeça de gato e um atentado a faca a poucos metros da redação. O caso não foi esclarecido.
A presidente da Abraji, Ana Carolina Moreno, afirmou que o abandono da cobertura por medo de ataques representa uma derrota para a democracia. A Abraji e a ANJ classificaram as pressões contra os veículos como violações ao exercício do jornalismo, com impactos sobre a liberdade de imprensa e a democracia.
Disputas judiciais em Alagoas
Em Alagoas, o portal Mídia Caeté foi obrigado pela Justiça a retirar uma reportagem que mencionava o suposto envolvimento do deputado federal Rafael Brito (MDB-AL) em uma infração eleitoral. A publicação relatava que alunos de uma escola pública teriam recebido dinheiro para comparecer a um evento com a presença do parlamentar, que estava em pré-campanha para a reeleição.
O TRE-AL determinou a remoção do conteúdo e aplicou multa de R$ 5.000 ao portal. O desembargador Mauricio Cesar Breda Filho, relator do caso, afirmou que havia uma declaração do diretor da escola assumindo a responsabilidade e isentando o parlamentar. A pessoa que enviou as mensagens teria dito ao portal que a inclusão do nome de Brito havia sido um erro de digitação.
O MDB alagoano, autor da ação, argumentou que a publicação retirava o episódio de contexto e associava o pré-candidato à suposta compra da presença de estudantes. Fundada há sete anos, a Mídia Caeté funciona como cooperativa, tem sete jornalistas e não possui chefia nem funcionários em uma estrutura tradicional de empresa de comunicação.
Wanessa Oliveira, 38, autora da reportagem e gerente editorial do portal, disse que o veículo não recebe verba publicitária nem doações de políticos e empresas. Parte dos recursos está vinculada a editais, e o portal tenta recorrer ao TSE.
Ordem para recolher jornais
Também em Alagoas, o TRE-AL determinou liminarmente nesta segunda-feira (21) que o jornal Tribuna do Sertão retire de seus canais uma reportagem sobre a investigação envolvendo R$ 97 milhões aplicados pelo Iprev, o Instituto de Previdência dos Serviços Públicos de Maceió, no banco Master.
A decisão incluiu o recolhimento dos exemplares impressos distribuídos na semana passada. A ação foi movida pela coligação de João Henrique Caldas (PSDB), ex-prefeito de Maceió e candidato ao governo de Alagoas. A manchete afirmava que o caso do Iprev alcançava JHC e que documentos o apontavam como investigado no esquema do Master.
Os advogados da coligação disseram que o título conferia aparência de veracidade à imputação de que JHC seria formalmente investigado. Ao aceitar o pedido, o TRE-AL afirmou que a manchete ultrapassava o direito de crítica e a narrativa jornalística regular.
A ANJ classificou a decisão como uma grave violação à liberdade de imprensa. Em nota, a associação afirmou: “A determinação de retirada da reportagem e, sobretudo, de recolhimento de uma edição já em circulação são atos de censura à imprensa, claramente vetados pela Constituição de 1988”.
A Tribuna do Sertão já havia sido condenada a remover conteúdo que fazia um trocadilho com o slogan de JHC na Prefeitura de Maceió. No lugar de “Maceió é massa”, o jornal publicou “Maceió é Master”.



