Um levantamento da Associação Nacional dos Servidores de Carreira de Especialista em Meio Ambiente e PECMA (Ascema Nacional) identificou 101 candidatos das eleições gerais de 2026 com multas ambientais registradas pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).
Os 190 processos administrativos reunidos na análise somam aproximadamente R$ 120 milhões em autuações abertas entre 2017 e 2026. A presença de uma multa na base de dados, porém, não significa necessariamente que o débito seja definitivo ou esteja sendo cobrado. Os casos estão em diferentes fases, e parte dos autuados ainda pode apresentar defesa ou recurso.
A categoria mais comum é a de multas para homologação ou dentro do prazo de defesa. Nessa etapa, o autuado ainda pode contestar a infração antes que a cobrança se torne definitiva. Também há processos em análise de defesa ou recurso, pendências de pagamento e casos encaminhados para inscrição em dívida ativa.
Quem são os candidatos
Entre os candidatos identificados, a ocupação mais declarada ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) é a de empresário, com 25 nomes. Depois aparecem produtor agropecuário, com 9, deputado, com 9, agricultor, com 8, e médico, com 7.
A maior parte concorre a cargos do Legislativo. São 49 candidatos a deputado estadual, relacionados a 101 autos que somam R$ 103,9 milhões. Outros 39 disputam uma vaga de deputado federal, com 71 autos e R$ 10,4 milhões. O levantamento também reúne 6 candidatos ao Senado, 3 segundos suplentes, 2 primeiros suplentes, 1 candidato a governador e 1 candidato a vice-governador.
O PL aparece com o maior número de candidatos autuados: 22, associados a 38 autos e R$ 14,2 milhões. Em seguida estão Podemos, com 12 candidatos, 22 autos e R$ 3,1 milhões; PSD, com 9, 14 autos e R$ 762 mil; União, com 8, 21 autos e R$ 3,76 milhões; e MDB, com 7, 13 autos e R$ 2,8 milhões. O Republicanos tem 5 candidatos e registra R$ 9,3 milhões em 17 autos.
Concentração na Amazônia Legal
Os candidatos identificados disputam eleições em 26 unidades da Federação. Desse total, 53 concorrem em estados que fazem parte da Amazônia Legal. A região concentra 117 dos autos analisados, relacionados a infrações cometidas no bioma.
O Pará lidera o recorte estadual, com R$ 77 milhões em multas pendentes por infrações cometidas no estado. O valor é quase cinco vezes superior à soma registrada no Amazonas, com R$ 9,7 milhões, e em Mato Grosso, com R$ 5,8 milhões.
As infrações relacionadas à flora, categoria que inclui desmatamento e degradação florestal, são as mais frequentes, com 119 autuações. Depois aparecem os registros classificados como fauna, com 15, e administração ambiental, com 13.
O valor está concentrado em poucos casos. Os dois candidatos com as maiores somas respondem juntos por mais de R$ 78 milhões, cerca de 64% do total. Outro candidato, que disputa uma vaga de deputado estadual pelo Amazonas, tem R$ 8,1 milhões em autuações. Ao todo, 37 candidatos possuem mais de uma multa em aberto; um deles aparece em 12 processos.
Tramitação dos processos
Wallace Lopes, representante da Ascema Nacional, explicou que o procedimento começa com a lavratura do auto de infração pelo fiscal, acompanhada do registro da irregularidade e das provas. Depois da notificação, o autuado pode apresentar defesa. A administração avalia o caso, pode solicitar informações adicionais e, em seguida, ocorre o julgamento em primeira instância. Havendo recurso, há uma segunda análise.
Cristiane Mazzetti, coordenadora da frente de Desmatamento Zero do Greenpeace Brasil, afirmou que a demora na tramitação e no julgamento dos recursos está entre os gargalos dos processos ambientais. “Quando apenas a multa é aplicada, a morosidade dos processos, aliada aos ganhos da prática ilegal, favorecem a reincidência”, disse.
Lopes apontou que os órgãos ambientais têm maior capacidade para fiscalizar do que para analisar e julgar as infrações. “Por isso, vemos muitos autos lavrados, mas uma capacidade limitada de concluir os processos”, afirmou.
Ações judiciais para questionar autuações também são frequentes, especialmente nos processos de maior valor. A maior multa da lista, de R$ 50 milhões, está com a exigibilidade suspensa. Segundo o analista ambiental, isso indica que há uma discussão judicial e que a cobrança administrativa foi interrompida por determinação da Justiça.
Critérios da análise
A Ascema Nacional consolidou 190 registros de autuações do Ibama e do ICMBio vinculados a candidatos das eleições de 2026. Os registros foram agrupados pelo CPF para evitar que uma mesma pessoa fosse contada mais de uma vez em processos diferentes.
Foram mantidos apenas autos sem indicação de cancelamento ou anulação na base original. O recorte considerou exclusivamente autuações com data a partir de 1º de janeiro de 2017. A análise usou dados abertos do TSE, do Ibama e do ICMBio.



