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Carmen Portinho uniu feminismo, urbanismo e habitação popular no Brasil

Engenheira e primeira brasileira a obter o título de urbanista, Portinho defendeu o voto feminino e a cidadania plena das mulheres.

Carmen Portinho uniu feminismo, urbanismo e habitação popular no Brasil

Carmen Velasco Portinho (1903-2001) participou de algumas das principais transformações sociais e profissionais do Brasil no século 20. Engenheira, urbanista e militante feminista, ela defendeu o voto feminino, a valorização do trabalho das mulheres e uma visão de cidade ligada às necessidades de quem conciliava emprego, maternidade e tarefas domésticas.

Nascida em Corumbá, hoje Mato Grosso do Sul, Portinho se mudou com os pais e os irmãos para o Rio em 1911. Ainda na adolescência, aproximou-se do movimento feminista que reivindicava cidadania plena para as mulheres. Ao lado de Bertha Lutz, ativista, bióloga e educadora, lutou pelo sufrágio feminino, conquistado pelas brasileiras em 1932.

A historiadora Mary Del Priore relata que Portinho chegou a sobrevoar o Rio distribuindo panfletos em defesa do voto feminino. Para a socióloga e cientista política Mayra Goulart, a engenheira integrou a geração que fundou a cidadania política das mulheres no país, mas sua atuação não se limitou ao direito de votar e ser votada.

Portinho também defendeu o acesso das mulheres à educação, ao ensino superior e às profissões liberais. A historiadora Teresa Cristina de Novaes Marques a descreve como uma figura que viveu de forma feminista, com autonomia e atuação produtiva em seu ofício.

Engenharia e urbanismo

Em 1925, Portinho se formou em engenharia na antiga Universidade do Brasil, hoje Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi a terceira mulher brasileira a concluir o curso. No ano seguinte, entrou para o quadro de engenheiros da Diretoria de Obras e Viação da prefeitura do Rio e passou a lecionar no Colégio Dom Pedro 2º, então um internato masculino com corpo docente formado apenas por homens.

A engenheira enfrentou questionamentos sobre sua capacidade profissional. Em um dos episódios relatados por Del Priore, subiu em um telhado para responder a um engenheiro que duvidava da competência feminina na instalação de um para-raios.

Portinho fundou, em 1922, a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, com Bertha Lutz, e criou, em 1930, a União Universitária Feminina, voltada à inserção das mulheres nas profissões liberais. Em 1936, concluiu a pós-graduação em urbanismo na então Universidade do Distrito Federal. A formação era necessária para obter o título de urbanista, pelo qual, segundo a arquiteta e historiadora Flávia Brito do Nascimento, Portinho tinha especial orgulho.

Como trabalho para a obtenção do título, apresentou um anteprojeto para a futura capital federal, Brasília. A proposta, baseada em conceitos do urbanismo moderno, previa uma metrópole de 2 milhões de pessoas e tinha formato de transatlântico. Portinho não participou do concurso público realizado duas décadas mais tarde para escolher o projeto de Brasília.

Em 1937, criou a Associação Brasileira de Engenheiras e Arquitetas. Uma bolsa do Conselho Britânico a levou à Europa em 1945, onde acompanhou equipes que reconstruíam e remodelavam cidades atingidas pela Segunda Guerra. A experiência reforçou sua visão de que arquitetura e urbanismo poderiam ser instrumentos de transformação social.

Habitação popular e atuação pública

De volta ao Brasil, Portinho criou e foi a primeira diretora do Departamento de Habitação Popular da Prefeitura do Distrito Federal. Também colaborou com o arquiteto Affonso Eduardo Reidy, seu companheiro, no projeto do Conjunto Habitacional Prefeito Mendes de Morais, conhecido como Pedregulho. A concepção do complexo de moradia popular partiu dela.

O projeto previa, além das moradias, escola, posto de saúde e outros serviços reunidos em um mesmo espaço. A proposta ajudou a consolidar uma ideia de habitação popular associada à qualidade da arquitetura e à integração social, e não apenas à construção de casas de baixo custo.

A arquiteta Beth Ferraz identifica nesse trabalho uma forma de urbanismo voltada à economia do cuidado, considerando os deslocamentos e as tarefas de quem precisava trabalhar e cuidar dos filhos, da roupa e da comida. Flávia Brito do Nascimento afirma que o Pedregulho se tornou um dos conjuntos residenciais populares mais importantes da história do Brasil.

O primeiro casamento de Portinho foi com o médico Gualter Adolpho Lutz, irmão de Bertha Lutz. Depois da separação, ela passou a viver com Reidy. Na época, a lei do divórcio no Brasil só seria aprovada em 1977.

Sua carreira no funcionalismo público municipal terminou em 1962, quando antecipou a aposentadoria após divergências políticas com o comando da prefeitura do Rio. Mais tarde, foi responsável pela construção do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, projeto de Reidy, e dirigiu por 20 anos a Escola Superior de Desenho Industrial, apresentada como a primeira escola de design da América Latina.

Em 1987, Portinho participou da entrega da Carta das Mulheres aos constituintes, documento com propostas para a Constituição de 1988. Em 2022, foi declarada oficialmente patrona do urbanismo no Brasil. Seu legado reúne a defesa dos direitos das mulheres, a atuação em profissões técnicas e a criação de projetos de habitação popular associados à vida coletiva.

Texto produzido pela Redação Nexo Econômico com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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