JUAZEIRO DO NORTE — O catolicismo continua predominante no Nordeste, mas a religião não determina de forma uniforme o voto na região. Entre os fiéis, há apoiadores de Lula, eleitores de Flávio Bolsonaro e pessoas que não associam a fé à escolha política.
A proporção de católicos na população nordestina caiu de 89% em 1991 para 64% em 2022. No mesmo período, a presença de evangélicos passou de 5% para 22%. Ao todo, 24 cidades nordestinas têm maioria evangélica, entre elas São Pedro dos Crentes (MA), Rio Formoso (PE) e Sirinhaém (PE).
Apesar da mudança, o Nordeste continua com a maior proporção de católicos entre as cinco regiões brasileiras. A religião está presente em tradições populares, procissões e romarias, além da devoção a figuras como Padre Cícero, frei Damião e Irmã Dulce.
Na região do Cariri, no Ceará, a mistura entre fé e cultura aparece nas celebrações e nos espaços de devoção. O Crato, que em 2025 inaugurou uma megaestátua de Nossa Senhora de Fátima, tem a maior proporção de católicos entre cidades brasileiras com mais de 100 mil habitantes: 81,5% da população.
Religião e comportamento político
O professor Joscimar Silva, do Instituto de Ciência Política da UnB, identifica maior diversidade de voto entre católicos, mas aponta o crescimento de um catolicismo conservador, principalmente entre os mais jovens. Católicos e evangélicos compartilham pautas relacionadas a família, moral, segurança e costumes, formando um eleitorado conservador que atravessa diferentes igrejas.
Esse movimento também aparece em disputas locais, com o avanço de candidaturas ligadas a grupos religiosos para conselhos tutelares e câmaras municipais. No ambiente digital, discursos sobre valores comuns aproximam pessoas de diferentes religiões.
O frei Gilson ganhou projeção entre jovens católicos e reúne 13 milhões de seguidores nas redes. Ele é um dos principais nomes da Renovação Carismática Católica.
Em Juazeiro do Norte, Emilly Silva, 20, frequenta missas desde a infância e acompanha o frei Gilson. Em 2022, votou em Lula e pretende repetir a escolha neste ano, embora avalie que o governo petista tenha deixado a desejar. Seu companheiro, Stênio Martins, 28, está indeciso, critica Lula por preocupações com a economia e também reprova políticos que usam a religião para obter votos.
No Crato, o professor Raimundo Pereira, 41, afirma se identificar com a esquerda, mas ainda não decidiu se votará novamente em Lula. Já o bancário aposentado Armando Lopes Rafael, 70, devoto de Padre Cícero, vota em Flávio Bolsonaro e vê espaço para mudanças no comportamento eleitoral nordestino.
A influência religiosa também é considerada por candidatos. Na última semana de julho, cerca de 500 romeiros alagoanos foram à estátua de Padre Cícero, em Juazeiro do Norte. Adesivos de candidatos como Renan Filho e Arthur Lira foram colocados na base da estátua, prática proibida, mas recorrente.
Maria Aparecida de Melo, 68, assistiu a um ato de governo de Lula em julho, vestida de vermelho, e mantém o voto no PT. Católica, ela reza três rosários diariamente e rejeitou convites para conhecer uma igreja evangélica instalada no bairro.



